24 de mai de 2009

Selva do romantismo na Amazônia

Este teatro, nesta cidade, é o lugar perfeito para se montar uma utopia.

É assim que o maestro francês Laurent Campellone define a montagem que dirige no Teatro Amazonas, em Manaus, a ópera Os troianos, do compatriota Hector Berlioz (1803-1869), tido como o maior expoente musical do Romantismo, nos dias 24, 26 e 28 de maio. Trata-se de um novo capítulo na história desse marco da ópera francesa, de montagem dificílima, com cinco horas e meia de duração, marcado por uma história de preconceito e esquecimento.
Gestada entre 1856 e 1862, estreou no Théâtre Lyrique de Paris, em 1863, sem os dois primeiros atos, cortados devido a necessidades orçamentárias.
Nas 21 récitas que se seguiram, o diretor do teatro, monsieur Carvalho, promoveu cortes que levaram à supressão de personagens, para desgosto do compositor, já bastante doente. Só em 1921, Paris assistiu a uma montagem total da ópera. Foram necessários 100 anos após a morte de Berlioz para que finalmente, em 1969, fosse publicada pela primeira vez a partitura completa da ópera, o que permitiu sua maior difusão pelos teatros internacionais.

Nada muito diferente do cenário que circunda essa estreia, motivada pelo Ano da França no Brasil e que faz parte do XIII Festival Amazonas de Ópera, realizado pela Secretaria de Cultura do estado com o Ministério da Cultura e o comissariado do ano francês.

– Precisei reestudar a ópera para adaptá-la ao nosso orçamento, já que tivemos que trabalhar com 40% menos do previsto no festival – afirma o diretor cênico, Caetano Vilela, 40 anos, ainda assim empolgado com a montagem.

Cavalo de Troia
A história é famosa: baseia-se na poema épico Eneida, de Virgílio, e conta como um cavalo de madeira foi usado pelos gregos para conquistar Troia, apesar das previsões da sacerdotisa Cassandra, tida como louca pelo seu próprio povo.

Depois, é narrada a saga deEnéas, que lidera a fuga dos troianos até a cidade de Cartago (hoje Tunísia), tendo em mente a fundação de uma nova terra – a Itália. À história que o emocionou desde sua infância, o compositor uniu também ecos de O mercador de Veneza, de Shakespeare, outra de suas paixões, para contar a paixão de Enéas pela rainha cartaginesa Dido.

– Antes eu queria fazer uma montagem mais eurocêntrica, com imagens de uma antiguidade grega desconhecida. Mas, como parte da história se passa na África, preferi trazer referências mais brasileiras, utilizando símbolos do candomblé – explica Vilela.

Estão nos papéis principais os americanos Michael Hendrick (Enéas, tenor), Marquita Lister (Cassandra, soprano) e a meio-soprano brasileira Luiza Francesconi (Dido).

Assim, o guerreiro Enéas é identificado com Xangô, e Dido, com Iansã. Além disso, durante boa parte do espetáculo, a maquinária e os técnicos do espetáculo são vistos, como expressão da desconstrução e da construção de uma cidade, diz o diretor cênico. Na partitura, nenhuma mudança.

– Quando recebi o convite de Luiz Fernando Malheiro, deixei claro que apresentaríamos a obra sem nenhum corte, exatamente como está na partitura. Estrear uma obra dessas é uma grande responsabilidade – conta o maestro Campellone, que afirma ter em Berlioz seu compositor predileto. – Ele simplesmente não se preocupa com questões técnicas ou com a plateia. Não liga se os sopros esperam 35 compassos, tocam duas notas e depois esperam mais 20 minutos. É como um pintor, que recorre aos tons de sua paleta com cuidado.

Latinidade à vista
Para o maestro, a criativa partitura representa um desafio para que a ópera se torne popular em seu próprio país, o que explica parte da história de negligência.

– Franceses são latinos. Por isso, gostamos tanto de música italiana, calcada na melodia e na beleza do uso da voz. Berlioz é incomum porque ele dá à voz e à orquestra o mesmo nível de importância.
Márvio dos Anjos
Jornal do Brasil

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