29 de mar de 2009

Placa oxidada... tsc tsc

Finalzinho da tarde, ainda com muita luz espalhada pelo céu preguiçoso de domingo, desço as escadas do hospital com Juliana (22), filha minha que passara a tarde fazendo companhia para o avô. Apressamos o passo que às seis tenho compromisso de falar sobre "felicidade" num bairro distante. Não queiram saber agora sobre o enfoque, que isso é outra e longa conversa. Nem queiram saber se realmente entendo de "felicidade", isso poderia acabar mal.

Atravessamos a recepção, o pátio e a calçada em direção ao estacionamento. Ela vem atrás e esboça um riso de canto de boca. Não é esse mãe, diz. Puxo o braço, que direcionava a chave para um carro estranho e rindo vou em direção a outro. Mãe, esse também não, diz a essa altura quase gargalhando. O teu está lá na frente, mãe. Ora, deveria ser proibido estacionarem tantos carros escuros e empoeirados no mesmo lugar.

É quando ela me sai com essa. Mãe, acho que o teu GPS tem uma placa oxidada. Rimos tanto, um riso frouxo e largado...

Papai recupera a saúde e tem previsão de alta para breve. Dá pra rir mais um pouco...


27 de mar de 2009

Zé Miguel no garagem do Faustão

Recado do Zé:
"Queridos amigos, uma amiga querida chamada Nina Rosa, que mora na Paraiba, inscreveu um video da canção Pérola Azulada (Zé Miguel e Joãozinho Gomes) no quadro Garagem do Faustão. O video foi classificado e já está postado na página do programa Domingão do Faustão, no site da Globo. Os videos mais votados serão mostrados e o artista será convidado a se apresentar no programa do Faustão.
Estou vindo aqui pedir a todos que votem quantas vezes puderem. Para votar é só acessar http://tvglobo.domingaodofaustao.globo.com/garagem-do-faustao/2009/03/23/ze-miguel-perola-azulada/ e marcar todas as estrelinhas abaixo do video.
Atenção! Como o video foi postado na Paraiba, eles me identificaram como cantor da Paraiba, mas se eu for ao programa vou esclarecer com certeza de onde eu sou, pois tenho muito orgulho da minha terra, com todo o respeito e carinho ao povo paraibano é claro!
Conto com voces gente, vamos lá!"

26 de mar de 2009

Para além das copas das árvores

Um corredor escuro, vizinho das copas das árvores aquietadas pelo fim da chuva, termina com a porta dupla sob uma enorme e chamativa placa branca: UTI – Unidade de Tratamento Intensivo. Perto da meia noite espero do lado de fora por um chamado da funcionária que preenche formulários.

Amparada na mureta lateral, observo além do pequeno bosque um prédio com janelas abertas. Em uma delas a mulher jovem passa um pente na pele do seio esquerdo, estimulando a produção de leite, enquanto segura com delicadeza o bebê acomodado no outro braço. Tem um semblante tranquilo e sorri.

A porta dupla da UTI se abre e o funcionário pede com gentileza: Moça passe para o outro lado do corredor, por favor, que vamos sair com um óbito. Dois auxiliares surgem empurrando a maca com um corpo aparentemente robusto, coberto por lençóis azuis dos pés à cabeça. São ágeis na manobra.

Olho sem medo e faço uma prece para o acolhimento daquele espírito nos planos mais altos do universo. Num piscar de olhos o corpo e os auxiliares desaparecem na curva do corredor. Soube mais tarde que se tratava de um homem idoso. Nenhum parente o esperava, e a morte mais uma vez provara sua imponderabilidade.

Do outro lado das copas das árvores as mães amamentam, ninam e acarinham seus recém-nascidos. Dezenas de novas vidas berrando, expandindo seus pulmões, aprendendo a respirar e a se alimentar. É o fluxo de ir e vir entre dimensões que ainda estão além da compreensão dos homens. Minha fé me acalma.

24 de mar de 2009

Brincadeira do selo

Ganhei esse selinho da jornalista Dulcivania Freitas, do blog Além do Release. Funciona assim: a gente recebe a indicação de qualidade e faz mais quinze indicações; difícil fazer isso. Depois, o dono do blog agraciado - essa palavra é pomposa né? - vem aqui e copia o selinho pra levar de presente. Antes, quero agradecer a delicadeza de Dulci e sua assiduidade em ler meus rabiscos. Amigo é também pra essas coisas. A ordem de minhas indicações é alfabética e sua vocação é poética.
The Oscar goes to:
Abaribó
Alcinéa Cavalcante
Além do Release
Ave Palavra
Bárbara Damas
Ivan Carlo
Neste Instante
Não me conte seus segredos
Poema Dia
Revelações de Minh'alma
Ronaldo Franco
Saitica
Tempo Algum
Toda Quinta
Varal de Idéias

23 de mar de 2009

Recados da chuva

Tenho os olhos levemente fechados agora, e ouço o murmúrio da chuva que desce formando fina cortina entre os corredores claros da área de convívio do hospital. Concentro nos sons seqüenciados e nítidos. Têm ritmo de conversa amiúde entre o céu e a terra, tecendo informações e sabedorias entre as muitas dimensões.

É possível perceber as inflexões das frases e as intenções das palavras. Falam sobre o curso das coisas da natureza e dos homens. A terra recebe orientações do universo para seguir sua sina de eterno regenerar. Nesse lugar, os recados da chuva chegam para calar aflições que perambulam insones pelos corredores, enfermarias e leitos povoados pela dor, ninados pelo medo da morte.

A chuva traz de longe, em frascos de água radiante de luz da tarde, florais de esperança. E tudo parece calmo na imensa paz inventada para esse lento passar de horas. É quando ouso entrar na conversa, que me chega através dos estalidos das gotas nas folhas e nas pedras do jardim. Antes que me ouçam, uma cigarra entra com sua fala ininterrupta, em forma de canto, como se há muito esperasse por essa oportunidade.

Outra tentativa de entrar na conversa e a chuva ignora meus apelos. Minha impulsividade por falar, opinar, perguntar, que tão bem funciona no mundo dos homens, parece imperceptível aos ouvidos da natureza. Então compreendo, num breve intuir, que é preciso aprender a escutar primeiro com os ouvidos, depois com o coração, para que a alma possa compreender os recados de Deus sem o concurso de uma única palavra.

21 de mar de 2009

A cantora

Eram quase três horas da tarde quando saí do hospital debaixo de uma chuva tão fininha que nem molhava o vento. Tentava fazer parar os pensamentos, ignorar o cansaço e fingir que a cabeça não doía quando estacionei meu carro, embebedado de respingos da lama da cidade mal cuidada, numa réstia de sombra próxima ao restaurante self-service.

Àquela altura certamente encontraria comida sofrível e funcionários com ar de desânimo, de olhos injetados no porvir das horas. Dito e feito. Mais que isso, não havia nenhum freguês do salão, a não ser a cantora e o músico numa conversa sonolenta em volta de uma mesa de canto. Mas, a fome e a tentativa frustrada de comer a comida sem gosto do hospital pediam alento.

Salada e camarão pareciam despertar o paladar. Sentei num canto – não sei por que tenho mania de cantos – quando percebi o movimento da cantora e do músico às minhas costas. Arrumaram-se no fundo do salão e puseram-se a executar seu trabalho. Só pra mim? Pensei rapidamente e em seguida troquei de lugar para olhá-los de frente. Tocar e cantar para uma única pessoa e ainda de costas, que cena mais deprimente seria.

Começou com a canção Sereia, de Lulu Santos, marcada nas vozes de Maria Bethânia e de Fafá de Belém. “... vejo a face luminosa do amor, as ondas vão e vem, e vão e são como o tempo...”. Tentava dar atenção aos artistas enquanto a comida descia devagar, sem muito gosto. A cantora enfadada olhava para o alto, para as mesas vazias e de vez em quando esboçava um sorriso meio sem jeito em minha direção. O músico dedilhava o violão como se sua alma houvesse esquecido ali aquelas mãos ensaiadas.

No final da canção, arrumei os talheres no prato e aplaudi. Ouvi o eco das minhas palmas na sala e gostei do brilho no olhar dos artistas. Espichei o que pude o tempo ali, ouvindo uma sequência de sambas de morro enquanto empurrava o prato e bebia bem devagar a limonada. Mais não deu. Acenei para os dois e parti deixando para trás a certeza de que a luz que reluz nos olhos dos artistas é chama apagada sem o calor de sua platéia.

(Tela: Fever, de Trish Biddle)


19 de mar de 2009

"Eu faço cultura" traz Nando Reis e oficinas a Macapá

O maior projeto cultural do Brasil financiado com recursos do Imposto de Renda de Pessoa Física, Eu Faço Cultura, volta a percorrer o Brasil a partir deste mês. Mais de 30 cidades receberão as atividades do projeto que vai levar oficinas gratuitas. A primeira cidade a receber a programação cultural é Macapá, com as oficinas e o show de Nando Reis, que marca e encerra as atividades.

Para as oficinas, são oferecidas 40 vagas cada uma. Após as aulas, 10 alunos da oficina de música farão a apresentação de abertura do show de Nando Reis. As oficinas serão ministradas pelo grupo Indústria Brasileira e pelo DJ Leandronik. O Eu Faço Cultura (EFC) é uma iniciativa da Federação Nacional das Associações de Empregados da CAIXA (FENAE) que, por meio do Movimento Cultural do Pessoal da CAIXA (MCPC), mobilizou, no final de 2008, mais de sete mil empregados da instituição.

Oficinas
Nos dias 25 e 26 de março, entre as 18h30 e 22h30, será realizada oficina de música com o grupo Indústria Brasileira. O conjunto tem como objetivo principal divulgar a música brasileira, seus principais compositores e intérpretes, em um formato de música instrumental. A oficina vai abordar ritmos como o samba, choro, baião, afoxé e até batidas funk. Será deste workshop que serão selecionados os participantes da abertura do show do cantor Nando Reis. O grupo Indústria Brasileira é formado por Esdras Nogueira no sax e flauta, Leo Barbosa na percussão, Marcus Moraes no violão, Wlad El Afiouni no baixo e Rafael dos Santos na bateria. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site www.eufacocultura.com.br até o dia 24 de março.

Também nos dias 25 e 26 de março, entre as 18h30 e 22h30, será realizada a oficina de produção musical com o Dj Leandronik. A oficina vai apresentar as etapas da produção musical desde a pré produção, processos de gravação, mixagem e também apresentar formas de composição de músicas utilizando o computador. O objetivo é estimular o interesse dos participantes em dar continuidade à prática da produção musical. Leandro Ferrer ou DJ Leandronix é compositor e produtor musical há 20 anos e tem um trabalho voltado ao hiphop. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo site www.eufacocultura.com.br até o dia 24 de março.

Show com Nando Reis
O cantor e compositor Nando Reis apresenta, dia 27 de março, o show que encerra as atividades do projeto Eu Faço Cultura em Macapá. Na abertura do show, apresentação do Indústria Brasileira junto com 10 alunos da oficina de música. Nando Reis apresenta show Luau MTV, dia 27 de março, no Ceta Eco Hotel. O Luau funciona mais ou menos assim: amigos reunidos, violão e um punhado de hits.


(Informações de Luis Flávio Luz, da assessoria do Eu Faço Cultura)

Lançamento: Homens e pedras no desenho das fronteiras

Dia vazio

É um dia vazio esse que transcorre em volta de mim. Sua luminosidade oscilante, hora fosca, hora recalcitrante, apenas deixa clara a ausência de ar. Imersa em serenidade tímida, quero as vozes silenciadas, as palavras segredadas. Busco a melodia que não explica, a música que não se põe a revolver saudades. Apenas o agora sem nada de ontem, sem supor o amanhã.

A música então acolhe. E quase vejo os movimentos de suas ondas dançando no ar, formando uma ponte de harmonias desde lá até aqui, onde meus ouvidos quietos mal podem esperar. É quando ela invade meu corpo e desenha tatuagens por dentro da minha pele, acordando os terminais nervosos que se agitam e entorpecem. E fico...

18 de mar de 2009

A palavra

A palavra como o tijolo. O sentimento como o cimento na construção de um novo tempo. Nenhuma palavra se perde. A palavra é força viva e sonora da energia da vontade. Se a palavra é má, ainda é má a vontade.

Cada palavra transformada, transforma o raio de abrangência a sua volta. Cada palavra que insiste em ferir, mais fundo fere a cada vez que é proferida. A palavra sangra e faz sangrar. A palavra cura e faz curar. Feliz daquele que,ao descobrir o fel da sua palavra, Inicia a transformação do amargor em mel.

Não há palavra solta. A palavra é um elo na infinita corrente do pensamento; e o pensamento é a mais poderosa expressão da vontade. Cuidar do pensamento assegura cuidado com a palavra. Então, a vida pode fluir em ritmo de mansidão sem deixar rastros de mágoa nos corações.

Intuição

Para Lilian Dalledone


(Tela: Enlightenment, de Ivo)

17 de mar de 2009

Itaú cultural realizará oficinas de jornalismo cultural em Macapá

O Itaú Cultural, em parceria com o SESC Amapá e a Faculdade SEAMA, trará a Macapá duas oficinas de Jornalismo Cultural, gratuitas e abertas para o público, com foco em estudantes de jornalismo. As oficinas acontecerão nos dias 31 de março e 1º abril e as inscrições já estão abertas na Central de Atendimento do Sesc Araxá.

Oficinas:
Em Busca do personagem: um olhar singular, será uma oficina de reportagem em jornalismo cultural, com destaque para a construção de personagens. A atividade tem como primeiro momento uma reflexão sobre o que é um olhar singular para o jornalista, que deve ser livre de clichês, do óbvio e do mero exótico. Os principais temas abordam a pesquisa e a escolha do personagem, técnica da entrevista e a transpiração na produção do texto.
Dia 31/03, das 09h às 18h. 30 vagas.

Blogs, estilos textuais e a construção da reputação em rede: abordará o estado geral da blogosfera brasileira, mostrando os diferentes formatos e estilos textuais dos blogs brasileiros – sobretudo as clivagens entre blogs, jornalismo e literatura – que se predominaram durante os últimos 10 anos na rede. A atividade também discute o estado da blogosfera local em cada um dos Estados onde é realizada e, num terceiro momento, propõe exercícios de produção de textos para blogs, técnicas de construção de reputação e relevância em blogs. Por fim, há um debate sobre os principais dilemas da prática blogueira.

Dos oficineiros:
Eliane Brum é Jornalista e Documentarista, Repórter Especial da Revista Época, com mais de 40 prêmios de reportagem, como Esso, Vladimir Herzog e Sociedade Interamericana de Imprensa e Fabio Malini é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Espírito Santo, Pesquisador-associado do Laboratório de Estudos sobre Território e Comunicação e do Laboratório CiberIdea, ambos da UFRJ. É membro da equipe do periódico acadêmico Revista Lugar Comum e do comitê editorial da Revista Global. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Redes Sociais, Território e Novas Mídias.

Evento: Caravana Rumos – Macapá – 2 Oficinas
Data: 31/03 e 01/04
Horário das oficinas: 9h às 18h
Paradas de 15 min para lanche às 10h30 e 16h30
Almoço das 12h30 às 13h30
Local das oficinas: Faculdade SEAMA
Público: em geral, com foco em estudantes de jornalismo
Local de Inscrições: SESC Araxá – Central de atendimento
Av. Jovino Dinoá, 4311 - Beirol - Fone: 3241-4440
Período de Inscrições: de 18 a 24/03/08, de 2ª a 6ª feira (das 8h às 20h) e aos domingos (das 9h às 14h)
Quantidade de vagas: 30 vagas para cada uma das oficinas

Juliana Coutinho

Invasões súbitas na madrugada

Quatro textos estranhos apareceram na manhã desta terça-feira (17) postados aqui no Papel de Seda. Eram matérias de assessorias de imprensa que perderam o rumo na rede e vieram parar aqui. Meu outro lado, que é jornalista com prazo de validade vencido, alimenta diariamente outro blog, que dá suporte ao programa de rádio Café com Notícia, apresentado por mim e pela também jornalista Ana Girlene Oliveira diariamente através da Rádio Equatorial FM.
Bem, era madrugada e o sono, misturado a mais um dia puxado, fez com que a jornalista invadisse a praia da aprendiz de escritora, que é meu lado aqui do Papel, deixando os pobres textos intrusos com aquele ar de quem entra na festa errada. Já os resgatei daqui. Os leitores devem ter estranhado um pouco. Fato é que sentei as duas - jornalista e escritora - para uma conversa e elas se entenderam. Cada uma no seu quadrado, a não ser que a terceira de mim, esta que voz escreve agora, autorize invasões súbitas.
Sobre uma delas - ou de mim - ser jornalista com prazo de validade vencido, bem isso tem a ver com a absoluta impossibilidade de exercício dessa profissão, na sua integridade, num rincão brasileiro onde a liberdade e a dignidade são pratos que se come frios... muito frios. Mas, isso é uma outra conversa, nada literária, que se for escrita em papel de seda pode rasgá-lo.

15 de mar de 2009

Resposta ao coração

Há uma escada de três degraus, cujo cimo culmina em um jardim descuidado. Precisas subir apenas três degraus, ainda assim permaneces em estado de inércia.
Se não consegues subir tão somente três degraus para cumprir uma única tarefa, como pretendes atingir a plenitude da primavera em teu coração?

Intuição

(Tela: Tuscan Garden, de Jon McNaughton)

13 de mar de 2009

Varanda de flor


ah se eu pudesse
fazer brotar agora
da caixa de Pandora
escrito tão bonito
afeiçoado à esperança
na lonjura do infinito

ah se fluísse uma oração
da janela do meu coração
pulsando em forma de canção
arco-íris de mil palavras
varando a floresta envergada
de tanto açoite e facão

chegaria com a luz da manhã
gotejando sorriso e frescor
aninhando nos braços distantes
cada légua de mim retirante
que distância na casa do amor
é varanda enfeitada de flor


(Tela: The Letter, de John Haskins)

Agenda Belém

Branca de Neve e os Sete Anões - De 02 a 29 de abril de 2009, a Cia. de Teatro 7 da Arte, apresenta o espetáculo “Branca de Neve e os Sete Anões”. Locais Teatro Gasômetro (Parque da Residência), Waldemar Henrique (Pça. da República) e Polo Joalheiro (Antigo Presídio). Informações 3274-1046 e 88044693.

Vias - A partir do dia 13 está aberta a exposição “Vias”, com 35 obras de fotógrafos paraenses. Vernissage dia 12 às 19h, só para convidados. A exposição fica aberta até o dia 24 de abril, de terça a sexta, de 9 às 12h e de 13h30 às 19h30, e sábado de 9h às 12h. Às quintas, oficina de fotografia pinhole com Valério Silveira. Local: Galeria de Artes do CCBEU. Informações: 3242 9455, ramal 214.

Belém Histórica - Exposição Belém Histórica, organizada pela Associação Fotoativa. Local: Sede da Associação Fotoativa (Largo das Mercês). Período: de 07 de março a 25 de abril, das 9 às 18h (seg a sex) e das 9 às 13h (sab). Realização: Projeto “Muito prazer, seu patrimônio”, do IPHAN.

Teatro ao Pôr-do-Sol - Dia 22, o Grupo de Teatro Maromba apresenta o espetáculo “Três Baratas Tontas”. Dia 29, será a vez do espetáculo “Palhaços Surdos”, da Cia. Teatral Mãos Livres. Informações: (91) 3212-5615/ 5660.

Redesenho - Exposição "Redesenho", do artista plástico Simões, na Taberna São Jorge (Félix Roque, 268, Cidade Velha). Informações: 3222 9400.

Vertentes da Amazônia - Está aberta a exposição “Vertentes da Amazônia”, na Galeria de Artes do CCBEU. A mostra possui 33 obras de artistas paraenses que foram adquiridas pelo CCBEU para integrar o acervo do MABEU.

Sinval Garcia - Em exposição até o dia 27 de março, no Espaço Cultural do Banco da Amazônia, A Câmara da Transmutação Secreta, com fotografias de Sinval Garcia. Horário de visitação: 10 às 17h, de segunda a sexta-feira.

Amazônia - Aberta a exposição “Amazônia: A Natureza e a Arte do Fogo”, na Sala Antonieta Santos Feio - Museu de Arte de Belém (Mabe) - Palácio Antônio Lemos.


(Diário do Pará)

"Eu quero o Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro"

Neste domingo (15/03) a Associação dos Percussionistas do Pará/Amazônia - ASSPAM, realizá uma grande Roda de Tambor, tendo como convidados os artistas: Nilson Chaves (Pará), Patrícia Bastos (Amapá) e Andressa Nascimento (Roraima).
Esta ação é para potencializar a campanha "Eu quero o Carimbó Patrimônio Cultural Brasileiro".

Venha participar! Leve seu instrumento musical, sua sensualidade para dançar, bonecos para brincar. A música estará em toda parte, em todo lugar!!!!!

Serviço:
Local: Praça da República;
Hora: 10h30;
Perímetro: Ao lado do Teatro Waldemar Henrique.

"O Carimbó não morreu
Está de volta outra vez
O carimbó nunca morre
quem canta o carimbó sou eu".
Mestre Verequete

(Fabrício Lobinho - Produtor Executivo)

Belém


11 de mar de 2009

O sonho de Luiza

Aos dez anos Luiza tem os olhos mais expressivos que alguém pode ter. São de um castanho escuro transparente e límpido. Vivos, tão vivos que hipnotizam. Quando ela planta aquele par de lentes brilhantes sobre alguém, fique esse alguém certo de que a bateria de perguntas e respostas será contundente.

Na tarde de sábado os grandes olhos de Luiza estavam cercados por um vermelho intenso e perturbador. Faiscavam dor e buscavam com mais voracidade por respostas inconclusas. Ela roia as unhas, respirava ofegante, andava de um lado para outro e não encontrava amparo. No meio da sala, na capela mortuária, o corpo de seu pai a emoldurava.

Luiza, que sempre sabia as respostas, procurava por elas agora. Entre soluços apegava-se ao ato heróico do pai no momento da morte. Durante um naufrágio nas águas revoltas da foz do Amazonas, ele entregara um carote vazio, que certamente o manteria vivo, para duas mulheres e uma criança que não sabiam nadar. Apenas ele não chegou à margem.

Um herói anônimo como milhares que arriscam suas vidas pelo interior do Brasil, levando e buscando conhecimento. Paulo, o pai de Luiza, era desses educadores apaixonados. Varava madrugadas auxiliando outros educadores com seus planejamentos. Viajava a qualquer lugarejo longínquo para organizar escolas e orientar professores. Chamava seus alunos de “meu professor” e “minha professora”.

Apertando as mãos uma na outra como se procurasse, através do tato e da pressão sobre a pele e os ossos delicados, sentir-se forte, Luiza caminhava. As manchas vermelhas de choro na pele alva de seu rosto oscilavam a cada vez que ela não controlava as lágrimas. Assim enfrentou corajosa os rituais fúnebres e a demora nas despedidas de parentes, amigos e tantos conhecidos do professor.

Não restava a ela senão reconstruir aquele episódio para dar sossego ao seu pequeno coração. Na tarde do dia seguinte, abracei Luiza e sentei a seu lado no pátio amplo e arejado da casa verde-água onde mora. Tia, sonhei com meu pai e havia dois carotes. Um ele dava para as duas professoras com a criança e o outro ele segurava e saía nadando até sumir.

Você sonhou com ele num outro plano. Lá ele nadou e chegou à margem, disse a ela. Então o espírito dele nadou num rio do outro plano e se salvou? Sim. O que ficou no rio do nosso plano foi só a matéria? Sim. Então ele está vivo mesmo, tia. Eu vi. E era tamanha a convicção em seus olhos falantes, que senti um certo embaraço com minhas próprias dúvidas. Sábia Luiza.

10 de mar de 2009

Pulsação

Os olhos buscavam forças na razão para manterem-se abertos, na mesma proporção em que o corpo despejava sobre a cadeira desconfortável todo o cansaço daquela semana estranha. Apoiava os joelhos na cadeira da frente e mantinha as pernas entreabertas numa atitude displicente. Queria muito compreender as palavras do homem alto e compenetrado, com sotaque sulista, que se esmerava em gesticular explicações.

Sabia apenas, pela sequência de ilustrações que se sucediam na tela luminosa no fundo da parede, que ele falava sobre o funcionamento do coração. Suas artérias e veias, idas e vindas a bombear sangue e oxigênio para o pulsar da vida. Ouviu bem quando ele se referia, em voz grave e didática, aos movimentos involuntários do músculo cardíaco. Dizia que esses movimentos fogem ao nosso controle, a não ser que sua motivação seja o amor.

Brincava com os sonolentos ao fazer tal afirmativa sem fundamento. Ora bolas, caro professor, que movimento mais involuntário que o amor? Então ele passou a descrever as pressões sofridas pelo corpo quando se aproxima o ser amado. Ela, com os ouvidos mais atentos, ajeitou-se na cadeira e sentiu a dor muscular percorrer seu corpo feito uma corrente voltaica.

Ouviria aquilo à luz da ciência para que sua alma se convencesse de uma vez por todas de que tudo não passava de reação química. E quase anotou sobre a sensação de desmaio, os suores, o aquecimento da pele, a pulsação acelerada e uma certa confusão mental... Inútil. Numa postura de resignação cruzou as pernas à altura dos tornozelos contraindo o corpo para dentro da cadeira, como se um frio tivesse lhe percorrido as veias.

Não faria mais nenhum esforço cognitivo.

(Tela: Abelardo e sua pupila Heloisa, de Edmund Blair Leighton)

9 de mar de 2009

De olhos semicerrados


O vento morno do meio da tarde secava as gotas salgadas que desciam dos olhos semicerrados e grudavam no rosto dela. Tinha a cabeça amparada pelo ombro e os braços apoiados no encosto da cadeira de balançar. Não se mexia. O temor infantil de que um gesto, uma contração muscular, um pulsar mais acelerado no coração aumentasse nela a dor que só latejava, a fazia paralisar nessas horas.

Pelas frestas das pálpebras úmidas e borradas de rímel preto, ela via o abandono tomar conta de seu jardim. Margaridas de primeira florada, portanto alheias aos sentimentos que imantavam aquele pátio, desabrochavam alegres em meio a plantas invasivas e sem nome que se embrenhavam por entre seus galhos. Diante delas as roseiras, mais calejadas e silenciosas, espichavam seus caules finos para fazer brotar novos botões bem lá no alto, longe da imprecisão.

Arrumaria tempo e ânimo para cuidar do jardim, as flores rogavam por isso e quase imploravam em voz alta. Ao mesmo tempo em que se compadecia com o suplício das rosas e margaridas, uma voz rouca clamava de dentro dela, que cuidasse também de seus jardins interiores. Estavam tristes e tomados pelo mato, suas flores murchavam por falta de rega e os espinhos cresciam desordenadamente, ferindo a pele de seus sentimentos.

Não haveria mais abril e as chuvas de março inundavam as terras férteis de seu coração em desalento. Uma lufada de calor com cheiro de fumaça soprada pela descarga do ônibus a fez descerrar os olhos com algum vigor. Prendeu a respiração e temeu pelos dias que se sucediam no seu caminhar lúgubre. Rogava por outra vida, outro lugar, outro começo. Rogava por tudo aquilo que ainda não conhecia e, sobretudo, pelo que jamais sentira. Rogava por aquele beijo.

Violonista amapaense no Sonora Brasil do SESC

Pela primeira vez um artista vai representar o Amapá no projeto do SESC Nacional Sonora Brasil, que tem o objetivo de difundir o desenvolvimento histórico da música em todo território nacional. São priorizados os artistas e grupos que trazem as raízes musicais brasileiras, com trabalhos de alta qualidade.

O Amapá será representado pelo violonista Aluísio Laurindo Junior que foi selecionado para percorrer durante três meses oitenta cidades brasileiras levando a música clássica e a tradição oral. Como em todos os projetos desenvolvidos pelo SESC, a ação educativa é uma de suas vertentes, atuando na formação de platéias e na abertura de caminhos para difusão da música que não encontra espaço no mercado.


(Por Juliana Coutinho)

7 de mar de 2009

Coração de pano


Finalmente o menino novo da casa abrira a tampa do velho baú esquecido no quarto dos fundos. Luz e frescor despertaram a boneca de pano, tecida em algodãozinho estampado, desengonçadamente jogada no fundo escuro da arca. Seus olhos de vidro eram negros, grandes e perdidos. No vestido, corações de vários tamanhos e cores, todos eles tão bem desenhados que dava gosto contornar as formas.

O menino parou diante da fartura de brinquedos empoeirados, antigos e alguns quebrados, na esperança de encontrar algo que lhe agradasse. Foi tirando um por um, jogando de lado, e a boneca, apesar do tempo e de tantas desilusões, ainda acreditava ser escolhida. Ela sentiu a mão do menino afagar seus cabelos de lã emaranhados e cheios de nós, fechou os olhos e sonhou. Deixaria por fim o fundo escuro daquele baú.

Encantado com os corações coloridos e em vários tamanhos desenhados no vestido da boneca, o menino parou um tempo diante dela, com aquele olhar perdido, e esboçou sem querer um sorriso que foi se abrindo lentamente e quase se apaixonou. Apesar de velha e desengonçada, a boneca surgia diante dos olhos dele como terna novidade. Mais uma vez ele acariciou os cabelos de lã e seu olhar preencheu aquele coraçãozinho de pano com um calor quase humano.


No momento seguinte, feito o tempo inconstante que desaba o temporal quando prometia dia de sol, deixou de lado a boneca e perdeu seu olhar entre os outros brinquedos da arca. E eram tantos, e eram tamanhas as possibilidades de prazer e alegria, que já se fazia distante a memória dos corações coloridos e quase encantadores. A boneca, que tinha agora os olhos preenchidos com os olhos do menino, ajeitou o vestido estampado e velho, guardou no coração os afagos e aquietou suas ilusões até que tampa do baú se fechasse.


(Tela Doll with Red Hair and Braids, de Alba Galan)

3 de mar de 2009

Cortejo acanhado

Talvez cansado de tanto castigar, o sol decidira amenizar o calor no meio-dia daquela segunda-feira comum, escondendo levemente a intenção de fazer chover. Indiferente aos auspícios do tempo, a mulher estacionou o carro diante do muro baixo do cemitério à margem da rodovia que afasta a cidade dos olhos. O ônibus alugado despejava a dor de uns poucos parentes e amigos, que seguiam em cortejo acanhado rumo ao território dos mortos.

Tentando organizar pensamentos e sentimentos na mesma prateleira ilusória, ela não se sentia parte daquela dor. O que julgava saber sobre a morte a mantinha num certo distanciamento sensível. Uma presunção de lucidez que a protegia e consolava. Enquanto seguia o cortejo pelo caminho irregular de terra solta, cercado de mato ralo e pedregulhos, perdia o olhar pelos confins daquele cenário melancólico.

Desviando, quando possível, de lamaçais esquecidos pelo inverno, espiava em volta o desamparo riscando durezas pelo ar. O cemitério dos pobres da cidade era fecundo em tragédias corriqueiras. Contava histórias daqueles que nasceram sob o signo do abandono, da impossibilidade. Seu silêncio não celebrava a paz do descanso eterno, mas gritava a dor da renúncia.

Enternecida, a mulher fixou atenção à direita do caminho torto por onde se arrastava o cortejo. Jamais vira tantas sepulturas pequenas, destinadas a crianças, enfileiradas em seqüência. Todas semelhantes, de madeira pintada em azul com uma pequena cruz no alto. Tantas crianças mortas num mosaico que elucidava o quando mata a pobreza. A morte precoce levada a cabo de tantas formas quantas a desigualdade pode produzir.

Perdas contadas ali pelos caminhantes do cortejo. Cada um tinha uma ou duas para lembrar. Em cada sepulcro infantil uma história de privação e dor. O descaso no atendimento de saúde, a falta de socorro na madrugada chuvosa, a desnutrição pela fome, a surra violenta pelo pai alcoólatra, o afogamento nas águas sob a casa na ressaca, o acidente doméstico na ausência constante de cuidados.

Enquanto carimbava em sua alma as fileiras de mini sepulcros, a mulher mantinha sob os olhos o rosto do menino morto, fechado no esquife à sua frente. Seus pensamentos buscavam respostas, ao mesmo tempo em que fugiam delas. Seus sentimentos resgatavam abraços, afagos e conversas com significados. Manifestavam a intenção da saudade ali naquele lugar de despedidas.

Na última cova da última fileira perto da mata, um barro pegajoso de cor forte era removido com presteza. A mulher permanecia em silêncio, não se sentia capaz de interagir com a dureza daquelas horas. Apenas afagava um ou outro rosto, levava a mão timidamente ao ombro arqueado de alguém ou a estendia para um consolo possível. Aproximou-se quando o pastor evangélico convocou os presentes para uma oração.

O que pedir? Quanto agradecer? O que rogar?

1 de mar de 2009

Jeito de alegria

Ele era assim sempre, com riso e piada pronta para todas as situações. Talentoso e inteligente, aos 16 anos, Lucivaldo resistia bravamente aos apelos do álcool, das drogas e dos delitos tão comuns entre os jovens do bairro onde morava. As dificuldades financeiras da família doíam no menino, mas ele seguia firme, com olhar de quem se sabia portador de um talento extraordinário para as artes.

Escrevia sentimentos, desenhava e pintava pensamentos, brincava com a vida com um humor perspicaz e às vezes sarcástico. Tinha calor no coração e era assim um vaga-lume na escuridão da desesperança que às vezes se abatia sobre seus colegas. Certa vez se definiu como uma lâmpada, que iluminava o caminho de quem o seguisse. Nada modesto também, aliás, portador de uma lucidez rara nos caminhos do auto-conhecimento.

Em 2008 escreveu um texto, após uma audição de música instrumental, onde dizia que as manhãs de sábado no Centro Espírita Casa de Amor em Macapá, onde freqüentava o grupo de jovens, eram como “um jeito de alegria” em sua vida. O texto virou poema, que foi musicado pelo compositor Marcos Quinan e gravado, em estúdio caseiro, pelo cantor Eudes Fraga. Na tarde deste domingo, 1º de março, Lucivaldo partiu para o mundo dos espíritos. Não de um jeito com alegria, como vivia.

Ao brincar de pira-pega com amigos no lago do Curiaú, apoiou as mãos em um poste de refletores fincado dentro da água e morreu eletrocutado. Um poste ali colocado para clarear a beleza do deck do balneário recém reformado e ampliado pelo governo do estado. Um poste de energia dentro d’água, sem proteção adequada. Irracionalidade que levou o menino compositor, deixando para trás muita saudade.

Jeito de Alegria
(Marcos Quinan / Lucivaldo Oliveira / Márcia Corrêa)

se fosse a canção de amor
deixava pra trás a tristeza
não seguia do mal a dor
pra se plantar a leveza
se fosse a vida um acaso
procurava achar a nascente
onde estivesse a alma
e tudo o que a gente sente

(refrão)
porque uma canção de amor
na vida enquanto avança
é jeito de alegria
no colo da esperança
se fosse só jeito de alegria
regando o sentimento
um olhar de amor no dia
punha na paz o momento

(refrão)
porque uma canção de amor
na vida enquanto avança
é jeito de alegria
no colo da esperança
(Ouça a música no www.abaribo.blogspot.com)