7 de mar de 2009

Coração de pano


Finalmente o menino novo da casa abrira a tampa do velho baú esquecido no quarto dos fundos. Luz e frescor despertaram a boneca de pano, tecida em algodãozinho estampado, desengonçadamente jogada no fundo escuro da arca. Seus olhos de vidro eram negros, grandes e perdidos. No vestido, corações de vários tamanhos e cores, todos eles tão bem desenhados que dava gosto contornar as formas.

O menino parou diante da fartura de brinquedos empoeirados, antigos e alguns quebrados, na esperança de encontrar algo que lhe agradasse. Foi tirando um por um, jogando de lado, e a boneca, apesar do tempo e de tantas desilusões, ainda acreditava ser escolhida. Ela sentiu a mão do menino afagar seus cabelos de lã emaranhados e cheios de nós, fechou os olhos e sonhou. Deixaria por fim o fundo escuro daquele baú.

Encantado com os corações coloridos e em vários tamanhos desenhados no vestido da boneca, o menino parou um tempo diante dela, com aquele olhar perdido, e esboçou sem querer um sorriso que foi se abrindo lentamente e quase se apaixonou. Apesar de velha e desengonçada, a boneca surgia diante dos olhos dele como terna novidade. Mais uma vez ele acariciou os cabelos de lã e seu olhar preencheu aquele coraçãozinho de pano com um calor quase humano.


No momento seguinte, feito o tempo inconstante que desaba o temporal quando prometia dia de sol, deixou de lado a boneca e perdeu seu olhar entre os outros brinquedos da arca. E eram tantos, e eram tamanhas as possibilidades de prazer e alegria, que já se fazia distante a memória dos corações coloridos e quase encantadores. A boneca, que tinha agora os olhos preenchidos com os olhos do menino, ajeitou o vestido estampado e velho, guardou no coração os afagos e aquietou suas ilusões até que tampa do baú se fechasse.


(Tela Doll with Red Hair and Braids, de Alba Galan)

2 comentários:

Lulih Rojanski disse...

Márcia, a literatura é uma das coisas que me emocionam do modo mais verdadeiro que se possa imaginar. Não é à toa que choro a cada releitura de poemas que já lia quando era criança, quando leio qualquer palavra escrita por Gabriel García Márquez, e por aí afora, infinitamente. Seu texto me tocou fundo neste domingo em que eu já me sentia vestida com um lindo vestido de coraçõezinhos bem desenhados. Um beijo.

Márcia Corrêa disse...

Ah, os domingos... Tabém estou por aqui a ajeitar o vestido surrado. Bjs!