10 de mar de 2009

Pulsação

Os olhos buscavam forças na razão para manterem-se abertos, na mesma proporção em que o corpo despejava sobre a cadeira desconfortável todo o cansaço daquela semana estranha. Apoiava os joelhos na cadeira da frente e mantinha as pernas entreabertas numa atitude displicente. Queria muito compreender as palavras do homem alto e compenetrado, com sotaque sulista, que se esmerava em gesticular explicações.

Sabia apenas, pela sequência de ilustrações que se sucediam na tela luminosa no fundo da parede, que ele falava sobre o funcionamento do coração. Suas artérias e veias, idas e vindas a bombear sangue e oxigênio para o pulsar da vida. Ouviu bem quando ele se referia, em voz grave e didática, aos movimentos involuntários do músculo cardíaco. Dizia que esses movimentos fogem ao nosso controle, a não ser que sua motivação seja o amor.

Brincava com os sonolentos ao fazer tal afirmativa sem fundamento. Ora bolas, caro professor, que movimento mais involuntário que o amor? Então ele passou a descrever as pressões sofridas pelo corpo quando se aproxima o ser amado. Ela, com os ouvidos mais atentos, ajeitou-se na cadeira e sentiu a dor muscular percorrer seu corpo feito uma corrente voltaica.

Ouviria aquilo à luz da ciência para que sua alma se convencesse de uma vez por todas de que tudo não passava de reação química. E quase anotou sobre a sensação de desmaio, os suores, o aquecimento da pele, a pulsação acelerada e uma certa confusão mental... Inútil. Numa postura de resignação cruzou as pernas à altura dos tornozelos contraindo o corpo para dentro da cadeira, como se um frio tivesse lhe percorrido as veias.

Não faria mais nenhum esforço cognitivo.

(Tela: Abelardo e sua pupila Heloisa, de Edmund Blair Leighton)

2 comentários:

Lulih Rojanski disse...

Márcia, Roberto Freire, o psicanalista, era um grande estudioso do amor, e declara em um de seus livros, que do amor só se pode fazer necrópsia, jamais biópsia. Ele se declara, inclusive,incompetente para escrever sobre o amor. Enfim, para ele, o amor só pode ser expresso pelas artes e viajado pela poesia. Portanto, não façamos mesmo mais nenhum esforço cognitivo. Seria inútil. Um beijo.

Márcia Corrêa disse...

Outro beijo!