9 de mar de 2009

De olhos semicerrados


O vento morno do meio da tarde secava as gotas salgadas que desciam dos olhos semicerrados e grudavam no rosto dela. Tinha a cabeça amparada pelo ombro e os braços apoiados no encosto da cadeira de balançar. Não se mexia. O temor infantil de que um gesto, uma contração muscular, um pulsar mais acelerado no coração aumentasse nela a dor que só latejava, a fazia paralisar nessas horas.

Pelas frestas das pálpebras úmidas e borradas de rímel preto, ela via o abandono tomar conta de seu jardim. Margaridas de primeira florada, portanto alheias aos sentimentos que imantavam aquele pátio, desabrochavam alegres em meio a plantas invasivas e sem nome que se embrenhavam por entre seus galhos. Diante delas as roseiras, mais calejadas e silenciosas, espichavam seus caules finos para fazer brotar novos botões bem lá no alto, longe da imprecisão.

Arrumaria tempo e ânimo para cuidar do jardim, as flores rogavam por isso e quase imploravam em voz alta. Ao mesmo tempo em que se compadecia com o suplício das rosas e margaridas, uma voz rouca clamava de dentro dela, que cuidasse também de seus jardins interiores. Estavam tristes e tomados pelo mato, suas flores murchavam por falta de rega e os espinhos cresciam desordenadamente, ferindo a pele de seus sentimentos.

Não haveria mais abril e as chuvas de março inundavam as terras férteis de seu coração em desalento. Uma lufada de calor com cheiro de fumaça soprada pela descarga do ônibus a fez descerrar os olhos com algum vigor. Prendeu a respiração e temeu pelos dias que se sucediam no seu caminhar lúgubre. Rogava por outra vida, outro lugar, outro começo. Rogava por tudo aquilo que ainda não conhecia e, sobretudo, pelo que jamais sentira. Rogava por aquele beijo.

2 comentários:

Marcos Quinan disse...

Márcia,
Cheio de poesia... de letra de música...
Lindo...

Márcia Corrêa disse...

Outro título: Nem tão bela e quase adormecida.