30 de nov de 2008

A nova face de Macapá

Macapá, a capital solar do estado do Amapá, tem hoje mais de 300 mil habitantes. Sua expansão atraiu recentemente o mercado imobiliário e a cidade, que se estendia a perder de vista, invadindo ressacas e estreitando áreas quilombolas, assiste agora à verticalização de suas construções. Altos prédios residenciais e comerciais surgem em cada esquina, brigando com a falta de estrutura básica – saneamento, sobretudo – para concentrar a moradia nas regiões mais próximas do centro.

A face de Macapá está mudando a olhos vistos e com pressa. Quem viu a pequena cidade horizontal, de ruas largas e traçado reto, vai ficar com ela na memória. A partir de agora surge a Macapá dos espigões. E para conversar sobre a nova face da cidade, o Papel de Seda acionou o arquiteto e urbanista José Alberto Tostes (foto), que teve grande influência na construção do Plano Diretor da capital do meio do mundo.

Papel de Seda - Existe uma arquitetura amazônica?


Tostes - Existe uma arquitetura que respeita as condições climáticas e culturais da região. Não há especificamente uma arquitetura amazônica, mas sim uma arquitetura que respeita a cultura local.

Papel de Seda - Há uma estética regional que possa diferenciar nossas construções, aliando funcionalidade e beleza?

Tostes - Há sim, existe uma estética que prioriza a proteção adequada do vento, do sol, da chuva que cria uma plasticidade para o telhado e tudo isso associado a funcionalidade da edificação.

Papel de Seda - A verticalização de Macapá tem observado uma preocupação arquitetônica diferenciada?

Tostes - Sim, porque não se pode pensar somente no prédio, mas em toda a integração em relação ao entorno, para não ocasionar impacto de vizinhança e ambiental.

Papel de Seda - De que forma o curso de Arquitetura da Universidade Federal do Amapá pode contribuir para uma estética nova?

Tostes - Não creio que o curso de arquitetura possa contribuir com uma estética nova, mas sim com uma concepção de arquitetura que respeite as peculiaridades do lugar e isso pode ser associado à composição plástica que possa unir as concepções do novo e do antigo ao mesmo tempo.

Papel de Seda - Os elementos da cultura regional têm sido incorporados à formação dos novos arquitetos?

Tostes - A base do curso de Arquitetura da federal foi pensada exatamente neste sentido de incorporar todos os elementos que estão implícitos na cultura local amazônida.

José Alberto Tostes é Arquiteto e Urbanista; Mestre e Doutor em Ciências Sobre Arte na área de História e Teoria da Arquitetura; Professor Adjunto I da Universidade Federal do Amapá nos Cursos de Graduação em Arquitetura e Urbanismo; Especialista em Gestão Urbana; docente do Mestrado em Desenvolvimento Regional, atuando na linha de Planejamento Urbano Regional e Coordenador do Grupo de Pesquisa Arquitetura e Urbanismo na Amazônia.

Um paraense com asas

"Bem sei que a noite tem a propriedade de confundir as sombras com as realidades, seja ela a noite que resulta da ocultação do sol ou a que provém da ocultação da verdade, mas sei que a verdade, como o sol, acaba sempre, por distinguir as realidades das sombras."

Júlio Cezar Ribeiro de Souza

O paraense Júlio Cezar foi o homem que criou as bases para a eronáutica moderna, transformando balões em dirigíveis. Ele descobriu os princípios que tornaram possível navegar pelo ar, abrindo caminho para Santos Dumont chegar ao avião.

Júlio Cezar nasceu em 13 de junho de 1843, no município do Acará. Sua família era extremamente pobre, mas a inteligência fora do comum do menino foi notada pelo bispo Macedo Costa, que o tomou sob sua proteção e o levou para o seminário diocesano, onde ele fez seus estudos preparatórios.

A seguir foi matriculado na Escola Militar do Rio de Janeiro, que cursou durante quatro anos. Seu vigor intelectual expressava-se em seis línguas, que falava fluentemente, e legou, ainda, para a posteridade, uma gramática da língua portuguesa.

Em 1864, publicpu seus primeiros trabalhos literários, iniciando uma atividade pública que perduraria durante dez anos. Deflagrada a guerra do Paraguai, alistou-se como voluntário no Exército e ficou em Montevidéu durante três anos retornando em 1868.

No retorno a Belém do Pará, engajou-se na imprensa. Além dos folhetins e poemas que escreveu, tornou-se notável como polemista e crítico, uma das grandes expressões da imprensa da época. Sendo diretor de A Constituição e a Província do Grão Pará e da Biblioteca Pública.

Mas, a partir de 1874, Júlio Cezar dedicou-se integralmente a decifrar a dinâmica do vôo e foi, sem dúvida, um inovador no campo da aerodinâmica de apoio no ar, a concepção fusiforme dissimétrica dos balões, a forma e posição da cauda dos dirigíveis, a composição de forças para a sustentação, que constituem exemplos do estudo que realizou.

Em 1880, publicou sua teoria que estabelece um sistema aerodinâmico para dirigíveis, de forma que estes pudessem resistir ao vento. Ele explica o que chamou de forma dissimétrica: "O meu aeróstato é, por bem dizer, uma ave invertida e, admitindo que ele seja mais leve que o ar, dou-lhe superfície de resistência para que sejam para leveza ou força ascensional do sistema o que as asas e a cauda do pássaro são para o seu peso.

Assim como na ave, o peso é sempre proporcional às dimensões de superfícies do ponto de apoio, e tanto este quanto o peso são proporcionais à mobilidade do ar, da mesma maneira a força ascensional e as dimensões da superfície de resistência do balão do meu sistema são proporcionais entre si e a mobilidade do ar.”

Essa descoberta estabeleceu para sempre a forma dos dirigíveis - um charuto mais grosso na proa - e, mais tarde, dos aviões. Júlio Cezar submeteu sua teoria aos meios científicos, que a aprovaram, primeiro através do Instituto Politécnico Brasileiro, então o maior instituto científico na América do Sul, que considerou o sistema desenvolvido pelo inventor paraense o único aceitável para a navegação aérea e, mais tarde, expondo-a em Paris, na Academia de Ciências.

O acerto do parecer seria testado na prática mais tarde, quando, em 1881, subia ao ar o "Victória", primeiro dirigível do mundo em formato de charuto, provido de asas e leme, desenvolvido por Júlio Cezar nas oficinas de Hilaire Lachambre, em Paris. Com o apoio do governo provincial do Pará, Júlio Cezar patenteou sua invenção em dez países: França, Alemanha, Portugal, Inglaterra, Bélgica, Espanha, Itália, Áustria, Antiga União Soviética e Estados Unidos.

Se somarmos a isso os atributos de idealismo e altruísmo que também o caracterizaram, teremos formado o perfil de um homem que, como tantos outros, sacrificou sua experiência a serviço do progresso da humanidade.

Em outubro de 1881, a Sociedade Francesa de Navegação Aérea (SFNA) o convidou a expor a sua teoria de navegação aérea, o que de fato aconteceu no dia 27 desse mesmo mês, tão logo ele obteve a concessão da patente francesa para seu invento. A repercussão foi tão positiva que o nomearam membro da instituição em 10 de novembro de 1881, dois dias após a realização das primeiras de suas experiências práticas na Cidade Luz. E o capitão francês, Charles Renard, que presidira a SFNA até junho de 1881, comentou: "Como eu lamento que o inventor não seja um francês!"

Durante quase cem anos, o silêncio caiu sobre o inventor e sua obra. Somente em 1987 começou a reabilitação do inventor, através de pesquisa desenvolvida por Fernando Medina do Amaral e o PHD em física e professor da UFPA Luís Carlos Bassallo Crispino. A partir de documentos recolhidos em vários pontos do Brasil, da França e de Portugal, restabeleceu-se os fatos e a importância devida de Júlio Cezar no desenvolvimento da aviação, como o homem que conseguiu explicar quais os princípios da navegação aérea.

Falta, entretanto, a reabilitação integral do inventor paraense, de forma que lhe seja dado o espaço que merece, ao lado de Bartolomeu de Gusmão, Augusto Maranhão e Santos Dumont. Nada dizem de Júlio Cezar nas publicações, oficiais ou oficiosas, sobre o nascimento da aviação no Brasil e até hoje não houve ato que dignificasse a memória desse homem, cuja genialidade ultrapassou os seus contemporâneos para garantir-lhe um lugar na história.

Somente o instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica (Incaer), instituição que tem por finalidade principal preservar e divulgar as contribuições brasileiras para a aeronáutica, fundado em 1986, criou a Cadeira número 17, cujo patrono é Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Neste contexto e cenário, apareceram claramente as razões pelas quais a denominação do Aeroporto Internacional de Belém como Júlio Cezar Ribeiro de Souza é, incomparavelmente, mais apropriada.
Eurico Bentes Costa
(Bisneto de Julio Cezar)

29 de nov de 2008

Festival Quebra Mar de Música Independente

O Festival Quebra Mar estréia esse ano sua primeira edição e tem o objetivo de reunir música, arte e cultura num evento dedicado à cena independente nacional. “A proposta é realizarmos o maior festival independente de todos os tempos no Estado”, dizem os organizadores do evento em nota oficial, enfatizando o caráter ambicioso do Quebra Mar. E não é à toa: o festival traz uma programação recheada de shows e atividades paralelas. 28 bandas, 3 mesas redondas, 7 workshops e uma série de atividades como exposição de fotografias, artes plásticas e audiovisuais.

O Festival vai acontecer no Campus Marco Zero da UNIFAP. As mesas debatem os temas “O poder público e privado e o fomento da cultura” (dia 05), “Produção de Feiras e Festivais” (dia 06) e “Mídia, Comunicação e Jornalismo Cultural” (dia 06). Entre os participantes estão Eloiva S. Távora (SESC-AP), Ney Hugo (Comunicação do Festival Calango-MT), João Milhomem (Secretário de Estado da Cultura do Amapá) e Heluana Quintas (Coletivo Palafita e Associação de Cultura Independente do Amapá), entre outros.

Programação de shows

Dia 05/12/2008

MOPHO (AL); MINI BOX LUNAR (AP); FILOMEDUSA (AC); MARTTYRIUM (AP); AEROPLANO (PA); TETRIS (AM); Klethus (RR); GODZILLA (AP); 12v (AP); DEZOITO 21 (AP)

Dia 06/12/2008

MACACO BONG (MT); JORGE MAUTNER (RJ); STEREOVITROLA (AP); TURBO (PA); CLUBE DE VANGUARDA CELESTIAL (PA); Jolly Joker (PA); SPS 12 (AP); SAMSARA MAYA (AP); RONI MORAES (AP)

Palco Laboratório

Dia 05/12/2008

JC7, HELOIM, CERIMONIAL SOMBRIO, PROFÉTICA

Dia 06/12/2008

RELLES, AMATRIBO, NOVA ORDEM, NDA, DESTROYED EMPIRE05

Shows a partir das 18h00

Informações: festivalquebramar.com.br

Mostra de corais de servidores públicos do Pará

A Escola de Governo do Estado do Pará (EGPA) está promovendo a II Mostra de Corais dos Servidores Públicos. A mostra reúne corais formados exclusivamente por servidores públicos e se estende durante todo o mês de novembro em vários espaços culturais de Belém-PA.
O encerramento da mostra será no Teatro da Paz, no dia 1º de dezembro, às 19h30 e vai reunir todos os corais.
O Madrigal da UEPA, regido pelo maestro Milton Monte, é convidado especial da mostra, que tem entrada franca.
As II Mostra segue nos dias 29 de novembro, no São José Liberto, às 17h, com a apresentação dos corais da Santa Casa, do Detran e do Ministério Público. No domingo (30), se apresentam os corais da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), do Hospital de Clínicas e da Secretaria de Justiça.

Dia do Samba em Macapá

Na Foto: Guto, Cardoso, Francisco Lino, Zezinho Macapá e Sucuriju, o Rei Momo do Carnaval Amapaense.

O Movimento Cultural Perfil do Samba, de Macapá-AP, se prepara para comemora o Dia do Samba, 2 de dezembro, com programação educativa e muita festa.

Dia 02, às 10:00 - Roda de samba ao vivo, através da Rádio Difusora de Macapá (630 AM) com músicos amapaenses que fazem parte do Movimento.

Dia 02, às 14:00 – Palestras com os temas “A História do Samba”, com o historiador Célio Alicio; “O Samba Como Fator da Economia”, com o professor José Paixão; “A Inclusão Social Através do Samba”, com Vicente Cruz, e “O Samba Aglutinador de Todas as Artes”, com o carnavalesco Rodrigo Siqueira para alunos da Escola Estadual Azevedo Costa, localizada no bairro do Laguinho.

Dia 06, às 14:00 – Festa na quadra da Escola de Samba Solidariedade. Samba, pagode, partido alto e outras variações do gênero interpretadas por músicos como Robson do Cavaco; Paulo Kabeça, de Manaus; Nego Dito, do Pará; Grupo Gente da Gente e Sensasamba, além de outros convidados.

Para o último evento estarão sendo vendidos 300 ingressos a R$ 20,00, com direito a uma camiseta, feijoada, churrasco e cerveja a R$ 1,00.

Origem do Samba

O samba pode ter sua origem mais remota numa derivação do quimbundo semba, que significa umbigada, ou do umbumdo samba que significa estar animado ou estar excitado. Em verdade, o termo "semba" designava um tipo de dança de roda praticada em Luanda (Angola) e em várias regiões do Brasil, principalmente na Bahia.

Do centro de um círculo e ao som de palmas, coro e objetos de percussão, um dançarino solista, em requebros e volteios, dava uma umbigada em um outro companheiro a fim de convidá-lo a dançar, sendo substituído então por esse participante. A própria palavra samba já era empregada no final do século XIX dando nome ao ritual dos negros escravos e ex-escravos.
Oficialmente o primeiro samba foi gravado em 1917 com o título de "Pelo Telefone" e sob a autoria do músico carioca Donga.


(Pesquisa e texto de Rosane Volpatto)

28 de nov de 2008

O que vem do Norte: Walter Freitas

Há quase trinta anos o ouvi pela primeira vez, foi num teatro ao lado de três grandes artistas, meus amigos. Foi ali, naquele momento, que mais entendi muitas coisas que via, ouvia e convivia nas minhas andanças pelo interior da região exercendo minha profissão de sustento. Naquele instante, com surpresa e encantamento, fiquei frente a frente com um dos trabalhos mais originais e instigantes que já ouvi na música brasileira. Um dos mais contemporâneos e importantes da Amazônia e do Brasil.

Era como se estivesse diante de uma entidade. Foi avassalador, não havia nada parecido. Uma estridência, como vozes de tudo que vive na floresta e nos rios, naquela sonoridade. A harmonia, o ritmo, o andamento, uma surpresa inesperada atrás da outra. As letras, quase um dialeto; linguagem reconstruída ou rearrumada a partir da oralidade amazônica e do som das palavras e expressões colhidas da formação cultural, da nossa mistura étnica e racial. Um ajuntamento de vivências e modos vindos de todos os tempos. Viola e violão tocados com precisão incomum e uma voz que passeava também pelo falsete com naturalidade vibrando na possibilidade de cada canção deixada dentro da gente.

Foi emocionante e definitivo. Ali na minha frente estava um Mestre, mostrando com sua obra e seu jeito de apresentá-la o que não imaginava possível reunir na criação; limpidez, diferenciamento e originalidade construída na complexidade e na sofisticação da simplicidade. Tudo ali, uma sagração do homem, da sua história e da natureza nas suas maiores e menores partes. O som da exuberância e do mais comum do cotidiano da Amazônia, da maneira de falar e se contar dos caboclos ribeirinhos, seus habitantes.

Assim comecei a conhecê-lo e conhecer sua obra - formato próprio e atemporal vestida de uma dinâmica surpreendente, em harmonias cheias de sutilezas e compassos inusitados entrecortados pela sonoridade das palavras recheadas de termos, oralidades, modos, encantarias e expressões cunhadas pelos povos que aqui se misturaram ao longo do tempo e por suas histórias nem sempre pacíficas.

Compositor, instrumentista e cantor, escritor, dramaturgo, poeta, jornalista e arquiteto paraense, amazonida e brasileiro.

Um Mestre - humanista quando escreve pra teatro, quando fala em sua poesia, de injustiças, de pessoas que se comprometem com a luta por mais igualdade, humanidade e dignidade, quando se coloca em defesa da natureza com a intimidade de quem traduz seus sons. Jornalista aguerrido e conceituado sempre exerceu a profissão sem abrir mão do que pensa, de seu conhecimento cultural e de sua sensibilidade.

Poucos artistas se aprofundaram tanto em seu ofício e produziram obra tão complexa, seja na linguagem musical, na oralidade ou em sua percepção dos modos amazônicos. Poucos influenciaram tanto e tão naturalmente.

Sua música é um canto que ressoa de dentro da floresta, de dentro dos rios, de dentro da realidade ribeirinha. Pegam a gente por um lado inesperado, parece sentimento moído pelo tempo e sem tempo no tempo. Parece suspenso no ar. Um inesperado que as vezes choca, as vezes tem a brandura das águas silenciosas e as vezes a própria linguagem delas em fúria. E ressoa... ressoa num canto em que os tons são absolutamente naturais, o timbre parece conter ora o penetrante de um grito, ora o momento mais íntimo de tudo que vive e sussurra o mais temporal cotidiano da Amazônia.

A importância do seu trabalho vai varar o tempo, vai influenciar mais do que já faz agora e sua força e limpidez restará para muitas gerações. Por isso é recomendado para quem quer conhecer a sonoridade da Amazônia em sua mais profunda percepção.

À benção Walter Freitas.

Obrigado Mestre.

Marcos Quinan

27 de nov de 2008

Na ilharga da Fortaleza...

O historiador Paulo Marcelo Cambraia lança o livro “Na ilharga da Fortaleza, logo ali na Beira, lá tem o regatão: o significado dos regatões na vida do Amapá – 1945 a 1970". O livro resulta de sua tese de mestrado em História Social. Paulo Marcelo Cambraia é graduado em História pela Universidade Federal do Amapá e Mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. É professor da rede estadual de ensino, e docente do curso de História da Faculdade de Macapá – FAMA.

RESUMO DO LIVRO
A partir da nomeação do primeiro governador do Território Federal do Amapá, Capitão Janary Gentil Nunes, em 1943, o modo de vida local foi sistematicamente desconsiderado por seu governo e pelos governantes que o sucederam no período compreendido entre 1945 e 1970, balizado pela idéia de progresso para a região baseada na construção de uma malha rodoviária em desprezo às hidrovias existentes – a grande marca da vida regional – através de seus rios.

Tal desdém político gerou tensão entre o discurso oficial adotado – que priorizava e engrandecia a construção de estradas – contra o modo de vida local dos amapaenses que retiravam dos rios sua vivência e sobrevivência. Diante deste contexto, o livro apresenta um estudo sobre o modo de vida marítimo-fluvial e a cultura material dos regatões que comercializavam e abasteciam com gêneros variados a cidade de Macapá – capital do então Território.

Demonstra que para os regatões os rios eram fundamentais – não apenas no tocante às trocas e negociações comerciais, mas também em relação às experiências vividas que se traduzem na essência dos homens da região... O entendimento do modo de vida de alguns regatões foi desenvolvido não com um sentido nostálgico e perdido no tempo, mas como uma forma de identificação da tensão e da contradição existente entre o discurso governamental adotado e as formas de viver que ocorriam frente às mudanças que aconteciam no Território do Amapá naquele momento.

Serviço

Lançamento do livro Na ilharga da Fortaleza

Local: SESC Centro (Pe. Júlio com Gal. Rondon)

Data: 28 de novembro (sexta-feira)

Hora: 20 horas

(Fonte: Paulo Marcelo Cambraia)

Loucos e santos

Telmah de Oliveira (Telminha) é professora e leitora do Papel de Seda. Enviou para compartilhar com os demais leitores o pensamento/sentimento de Oscar Wilde (foto) sobre amizade, através do poema "Loucos e santos".

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Têm que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os perfeitos de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.
Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não se esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão estéril."

Oscar Wilde

Vi este poema bolando em blogs na internet como de um autor desconhecido. A alma que expressou o poema é a de Oscar Wilde.
Oscar Wilde foi um dramaturgo, escritor e poeta irlandês. Expoentete da literatura inglesa durante o período vitoriano, sofreu enormes problemas por sua condição homossexual, sendo preso e humilhado perante a sociedade.
Beijos meus amigos bem escolhidos!

Telmah de Oliveira

26 de nov de 2008

Nivito Guedes faz show no Bar da Brahma em São Paulo

Nivito Guedes (foto), cantor e compositor amapaense, está em São Paulo participando do projeto Amapá em Cantos, mostra de Música Popular Brasileira feita no Amapá, que apresenta quinze atrações do estado no palco do Sesc Ipiranga. O cantor fará seu show no dia 28 de novembro com a participação da cantora Lucina. De São Paulo Nivito conversou com o Papel de Seda.

Papel de Seda - As apresentações de artistas amapaenses acontecem desde o dia 20 de novembro. Como você percebe a receptividade do público à sonoridade da música feita no Amapá?

Nivito Guedes – A receptividade do público para com a sonoridade do Marabaixo e do Batuque, além das composições diversas com temas universais, está sendo um diferencial neste universo que é São Paulo.

Papel de Seda – O Amapá em Cantos é uma espécie de vitrine e cria expectativas de vôos mais altos para a carreira de quem participa. Você fez algum contato importante?

Nivito Guedes – A receptividade do público está sendo tão boa que fui convidado para fazer, na segunda feira (24), uma apresentação no bar da Brahma com voz e violão. Recebi elogios e cumprimentos do público, músicos e uma consideração especial do crítico Mauro Dias. Fiz contato com produtores que estavam presentes para, quem sabe no futuro, realizar shows nesta capital.

Papel de Seda – Você tem um trabalho gravado, o CD Todas as Luas. Tem projeto para um novo CD?

Nivito Guedes – Irei lançar um novo CD, provavelmente no primeiro semestre de 2009. O Todas as Luas retrata fases e momentos especiais e muito pessoais da minha vida musical, entretanto, levei 3 anos para concluí-lo. Ao final desse tempo eu já havia amadurecido novas idéias e sonoridades, que podem e são muito bem observados nos shows que realizo hoje. Esse crescimento musical precisa e deve ser registrado mesmo com toda dificuldade financeira que enfrenta uma produção independente.

Papel de Seda – Sua carreira é fortemente marcada por apresentações no circuito de barzinhos. Até que ponto essa atividade acrescenta valores ao seu trabalho?

Nivito Guedes – Eu gosto de bares, é um público bastante rotativo, dinâmico e as expectativas e preferências mudam a todo o momento. A gente precisa o tempo todo conduzir esse público para que um não perca o foco do outro. Para quem começa a trilhar essa carreira é uma fase importantíssima, sobretudo no que se refere ao domínio de palco.Infelizmente a remuneração desse trabalho árduo está muito aquém do que espera e merece um profissional que almeja produzir CDs, DVDs, etc. Particularmente fui para o circuito de bares por necessidade de divulgar o meu trabalho, já que as rádios em Macapá não tocavam nossas músicas. Hoje estou redirecionando a estratégia de divulgação desse trabalho, mas com certeza farei ainda muitos e muitos bares da vida.

Papel de Seda – Os festivais ainda são vitrines importantes para a música independente?

Nivito Guedes – Os Festivais são e sempre serão vitrines, mas precisamos amadurecer também em direção aos sons futuristas e contemporâneos, mais modernos. Precisamos abrir nossas mentes e inspirações sob pena de ficarmos presos ao saudosismo, reproduzindo o mesmo modelo, em toda sua concepção, dos antigos festivais. A conseqüência dessa repetição é o distanciamento do público, que não vê suprida a expectativa revolucionária, como foi no passado com o surgimento de novas concepções rítmicas, melódicas, sonoras.

"Câmera Amazônia" apresenta modinhas luso-brasileiras em Belém

Em comemoração aos 200 anos da chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, acontece nesta quinta-feira (27), às 20h, na Igreja de Santo Alexandre, o recital "Modinhas Imperiais", apresentado pelo Duo "Câmera Amazônia", formado por Edelmiro Soares (canto) e Urubatan de Castro (piano).

O concerto, que tem entrada franca, também inclui uma conversa com o público, sobre a importância de saraus e modinhas, e um panorama da época. O evento visa divulgar o gênero "modinha", que contribuiu para o desenvolvimento artístico-musical brasileiro e está presente em diversas vertentes da música nacional, desde as manifestações folclóricas regionais e nacionais, passando pela música popular e erudita. Dentre as canções mais conhecidas do repertório destacam-se "Quem sabe" e "Suspiros D'alma", do maestro Carlos Gomes.

História - A "Modinha" surgiu em meados do século XVIII e perdurou até a primeira década do século XX, sendo um período bastante duradouro e significativo para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da produção musical brasileira.

Serviço:
Recital "Modinhas imperiais"
Com: Duo "Câmera Amazônia"
Data: quinta-feira (27)
Hora: às 20h
Local: Igreja de Santo Alexandre / Belém-PA
Entrada Franca
(Texto: Ascom/Uepa)

Cia Arteatro apresenta "Mosaicum" no Teatro Porão do Sesc

A Cia Arteatro de Roraima (Foto) se apresenta no Teatro Porão do Sesc Araxá, nesta quinta-feira (27), com o espetáculo de dança Mosaicum. A companhia integra o projeto Sesc Amazônia das Artes, intercâmbio cultural entre os estados da Amazônia Legal, mais o Piauí. Mosaicum é um espetáculo de dança-teatro.
Através de uma linguagem contemporânea o grupo parte da simbologia do mosaico para compor um persogem fragmentado em suas lembrança e sentimentos. Um olhar sobre o ser humano em recortes que não o configura como um todo perceptível. Assinam a concepção do espetáculo os bailarinos Gilca lobo e Francis Madison, que também estão no elenco de Mosaicum juntamente com Einstein Berguerand.
Serviço:
Espetáculo Mosaicum
Horário: 20h
Local: Sesc Araxá - teatro Porão
Entrada: 02 kg de alimentos não perecíveis
(Serão doados ao programa Mesa Brasil)

25 de nov de 2008

Caminho sem volta

Tenho os olhos na lonjura da noite
E o silêncio macio se faz manto
Meu corpo é sertão do desterro
Pensamento entrelaça o encanto

Faço voltas na busca servil
Tuas horas de entrega em silêncio
Precisão na conduta do gesto,
Tua mão nos caminhos do corpo.

Tua boca sem tréguas
Na entrega do beijo.
Cheiro bom de saudade.
Minha vida é a canção do desejo.

E eu que sabia no começo
Que seria assim sem caminho,
Em você que é caminho sem volta.
Ainda me perco em teu ninho.

Márcia Corrêa

(Tela: Pessoa na janela, de Salvador Sali)

Jacarandá Altino do Acre


Recebi do fotógrafo Daniel de Andrade com o seguinte recado: "Parabéns aos amigos amapaenses que produzem cultura e alegria". São flores do Jacarandá Altino do Acre. Daniel edita o blog www.saitica.blogspot.com.

Workshops de Direção de Fotografia e Cinematografia Digital

Direção de Fotografia e Cinematografia Digital, com Othon Castro e Introdução ao desenho de som do filme, com Mário Alves Vieira, ambos do Rio de Janeiro, serão dois workshops oferecidos pelo Sesc, na área de cinema, de 08 a 13 de dezembro. Os cursos serão realizados através do projeto Núcleo de Pesquisa CineSESC Amapá que visa a formação e a capacitação dos apreciadores e amantes da linguagem audiovisual, oportunizando que os mesmos se tornem multiplicadores no estado.

As inscrições já estão abertas na Central de Atendimentos do Sesc Araxá, com vagas limitas (20 por curso). Investimento:
R$ 15,00 para estudantes e comerciários, mediante apresentação atualizada de carteira do SESC e instituições de ensino.
R$ 30,00 para usuário.


(Informações de Juliana Coutinho - SESC)

Eudes Fraga: Do espinho da flor do Mandacarú

24 de nov de 2008

I love Freddie Mercury

Aos 16 anos eu era feito uma janela aberta para um dia de sol. Recebia toda luz do mundo com imenso prazer. Amava pela primeira vez e através desse primeiro amor - Carlinhos - ouvi, também pela primeira vez, a voz de Freddie Mercury. Não lembro de mais nada daquele momento, só das minhas sensações. Uma voz que libertava forças de dentro de mim, que eu desconhecia. Como se, de repente, o mundo gritasse ao meu ouvido que a emoção era um território sem fronteiras.

"Love of my life", composta por ele, saía da caixa de som daquele toca-discos e me invadia pelas narinas, pelos olhos, crispando meus sentidos e quase fazendo verterem lágrimas feito chuva de todo meu corpo. Na adolescência tudo é muito e o pouco não existe. A capa do vinil não saía das minhas mãos e eu fixava nele, Freddie Mercury.

Love of my life, you've hurt me
You've broken my heart, now you leave me.
Love of my life can't you see,

Bring it back bring it back,
Don't take it away from me,
Because you don't know
What it means to me...


Dois anos depois, em janeiro de 1985, no palco do Rock in Rio, Freddie cantou “Love of my Life” e se calou para ouvir milhares de brasileiros cantando em inglês. “Beautiful”, disse ele. No mesmo ano, em novembro, morreu Carlinhos, aquele que me apresentara ao Queen, banda da qual Freddie era alma e vocalista. Inesquecíveis!

Freddie Mercury morreu no dia 24 de novembro de 1991, um dia depois de ter anunciado que estava com aids. Até hoje sua casa recebe centenas de buquês de flores. O Queen não resistiu à perda e se desfez logo em seguida. Dezessete anos depois ouço "Somebody to Love", também composta por ele, com a Orquestra Sinfônica de Londres e o Coral Popular de Londres que gravaram o CD Play the Best of Queen. Beautiful! Digo eu.
Can anybody find me somebody to love?
Each morning I get up I die a little
Can barely stand on my feet
(Take a look at yourself)
Take a look in the mirror and cry
Lord what you're doing to me
I have to spend all my years in believing you
But I just can't get no relief Lord
Somebody (somebody) ooh somebody (somebody)
Can anybody find me somebody to love?
...

23 de nov de 2008

Rosana Mont'Alverne no My Space

Ela canta muito e sabe como se portar no palco, mantendo o público atento a seus movimentos elegantes e seu semblante luminoso. Tem um espírito alegre e romântico, o que lhe garante espontaneidade e um brilho constante no olhar quando canta e quando simplesmente é. A cantora amapaense Rosana Mont'Alverne está agora no My Space, site epecializado em música independente.

Rosana estreou no site com três canções. O navegante da Internet pode ouvir em casa "Passageiro", de Zé Miguel, gravada no estudio Albatroz em Macapá, com produçao e arranjos de Edilson Dutra; Meu Leito de Rio, dela e de Dudy Mont'Alverne e Saudades do Samba, feita por sua avó, a poetisa Aracy Mont'Alverne (1913/2002).

Entre uma saudade e outra, Rosana manda notícias de Uppsala, na Suécia, onde reside com a filha Renata e o marido Kjell. Apesar de ser uma das primeiras artistas a movimentar a cena dos barzinhos em Macapá, nos anos 80, ainda não conseguiu concluir a gravação de um CD. Há uma trabalho seu inacabado no estúdio Albatroz, que por falta de patrocínio não foi finalizado. Enquanto isso, podemos ouvi-la no endereço: www.myspace.com/rosannamontalverne

Outra emoção

Rasguei o véu de estrelas
Que cobria meu coração
Ao ler teus poemas de amor
Nascidos de outra emoção

Encontrei retalhos de mim
Remendados em teus versos
Bordando em cada linha
Desenhos dos meus rastros

Como se ouvisses minha voz
No silêncio esquecido da tarde
Como se flutuasses a ermo
Na correnteza da minha saudade


Márcia Corrêa

(Tela: The Birth of a God, de Salvador Dali)

Terra ferida

Quando despes teu corpo
Da toga injusta da razão
Nasce em ti latejante
A quase cura na emoção

Quando repetes meu nome
No silêncio oportuno da tarde
Sinto a inquietude do agora
No tecer meticuloso da eternidade

Quando ergues muros às promessas
Te recolhes ao castelo sombrio
Dos poemas que se recusam a nascer

Quando finges despedida vazia
Espalhas sal na terra ferida
Semeada de tanto querer´
Márcia Corrêa

(Tela: Testa di Giovinetta, de Leonardo da Vinci)

Um colibri

Acordei com as asas apressadas de um colibri fazendo voltas sobre meu peito ainda aquecido de teu abraço. Uma saudade linda, que falava comigo por dentro, sussurrando baixinho sem saber ao certo o que dizer. E foi assim o dia inteiro, percebendo as minúsculas alegrias. Silenciosa cantoria que anunciava festa em minha alma. Saí feito um cortejo de fadas e serafins, espalhando cores e beijos do carinho que tive de ti. Amei cada pessoa, cada pequena folha, a vida enfim. Amei você mais de mil vezes até me convencer de que és fonte de mim.
Márcia Corrêa
(Tela: Whisper, de Monica Stewart)

22 de nov de 2008

Crescente fértil

manto fecundo da alma
elmo de saberes cósmicos
dádiva universal
desnudo artífice da luz
abraço sem braços
beijo sem lábios
propagação...

Márcia Corrêa
(Tela: Galatea of the Spheres, de Salvador Dali)

Atalhos de ilusão

não sei descrever
nas linhas invisíveis do papel
a dor que flagra meu silêncio
no vazio do teu olhar
eco de ciúme sem lugar
tecendo em todo chão
riscos de água

caravelas de saudade
enredo amiúde
que nem sei contar
perco nas palavras
tua melodia...
sentinela distraída
esquecida de pensar

atalhos de ilusão
quero de novo teu olhar
pulsar desde o começo
quero mundiar teus dias
encantar tua poesia
abraçar tua nostalgia
ser mais eu no recomeço
Márcia Corrêa

(Tela: The tub bathing woman, de Edgar Degas)

Amor feito cordel

quero tua saudade
na paz sentida e bela
amuleto na janela

tecido azul no vento
quero estar só
contigo à minha volta
beijo que não cessa

do amor que ainda resta
desejo que não basta
folha escrita a mão

dobradura de papel
do amor feito em cordel

Márcia Corrêa

(Tela: Inner Peace, de Monica Stewart)