5 de dez de 2008

Tarde de inverno

Habitava aquela casa antiga e cheia de cômodos, situada no centro do quarteirão de uma rua movimentada e crua. Nos primeiros dias do inverno, seus passos tornavam-se mais lentos enquanto transitavam entre um cômodo e outro, como se arrastassem um manto pesado e muito velho de pensamentos.

Na quase ausência de calor, ela prestava atenção nas luzes e nos matizes de cores diversas, que encantavam as paredes e portas da velha casa de seu pai. Naqueles finais de tarde, a chuva se fazia soberana do tempo e comovia o céu sem vento.

A larga janela branca permanecia aberta desde cedo, para que os raios do sol trouxessem vida aos crisântemos pálidos, plantados num pequeno vaso bem no alto da estante de livros. Por entre suas grades penetrava uma luz amarela, que tingia de quase laranja o fundo da pequena biblioteca, no contato com o rosa flamingo desbotado da pintura.

Era o seu pequeno e profundo mundo de enredos pueris. Olhou para os lados, como fazia habitualmente quando procurava sentidos, e parou com os olhos sobre um volume pardo deitado sobre a segunda prateleira da estante, bem em baixo dos crisântemos agora refestelados na sombra. “Ética”, um conjunto de ensaios com diferentes olhares sobre essa busca inata do homem, viajante e experimentador do plano dos valores morais.

Sentiu uma inquietação, como se aquele livro a chamasse de dentro dela mesma, e dissesse que as peças de seu mosaico estavam incompletas. Posicionou os braços para trás massageando as costas doloridas, estendeu-os devagar para o alto, tencionando os músculos preguiçosos e abraçou por trás o encosto alto da cadeira.

Ali parada, com os olhos fechados, ouvindo apenas o farfalhar das palhetas cansadas do ventilador de teto, deixou que os pensamentos a levassem por caminhos e labirintos em busca das peças perdidas de seu espírito inquieto. Abriu os olhos, espiou novamente o livro pardo e lembrou. Numa atitude de recompor-se, levantou e partiu para o seu quarto, na direção certa dos dois volumes que completariam aquele recorte de autoconsciência.

Há muitos anos, vira os três tomos numa livraria recheada de novidades. “Ética”, “O Desejo” e “Os sentidos da paixão”. Volumosos e de leitura densa, preenchiam naquele momento o seu mosaico existencial. Era um tempo como esse, vizinho do Natal. Comprou de cara o primeiro; o segundo inscreveu na lista de pedidos do amigo fraterno e o terceiro pediu de presente ao pai.

Pronto, estavam ali suas respostas. Inquietações de uma vida, quiçá de muitas existências. Estava ali o bálsamo para suas dores mais intensas e caladas, a solução milagrosa, pelo conhecimento, para o entrelace emaranhado dos sentimentos. E com zelo ela desembrulhou cada volume, com a mesma satisfação de quem recebe uma chave mágica destinada a abrir as portas dos mistérios da alma.

De volta à tarde de inverno de sua quase meia idade, arrumou os três volumes, há anos dispersos, na estante de madeira escura. Voltou a sentar-se na cadeira de encosto alto e aquietou-se. Olhou longamente para os livros, lembrando de quando os abria sôfrega e lia trechos enormes, como aqueles filmes que assistia na expectativa de que algo acontecesse e nada acontecia. Apenas lia.

Ah! Os livros, que sem a vida vivida nada seriam. A ética, o desejo e a paixão não transbordam das páginas em vão. Ela compreendia naquele instante, e ria, que era com as quedas e as marcas que aprendia. Cada olhar num desvão, cada sentido da paixão, cada desejo vertido em imprecisão, cada desvio da ética na contramão, eram essas as peças do mosaico da sinergia possível com seu espírito presente.

Agora o laranja ouro desaparecera da parede, e a luz fraquinha deixava réstias de branco fosco no piso amarelado pelo tempo. Nem era noite ainda, mas a tarde consciente de seus últimos minutos, suspirava e recolhia resignada as cores do dia. Fazia indefinidamente essa alquimia, misturando as luzes do sol com as tonalidades da estação, recriando matizes impressionantes só pelo prazer de ser tarde.


Márcia Corrêa

(Tela: Reading woman circa, de Pierre-Auguste Ronoir)

Um comentário:

Lilian Dalledone disse...

Que narrativa deliciosa!... Suas palavras têm o poder de transportar o leitor para dentro do texto...
Bom ter passado por aqui.
Tenha um lindo fim de semana.