4 de jul de 2009

Diálogo com a noite

Procurava o sono pelas cercanias do quarto de dormir. Ele, que outrora se mostrava sempre obediente ao esperá-la sobre o algodão macio do travesseiro, agora se rebelava e passava horas a se esconder nos desvãos da estante, por entre os livros, por trás do cabide de bolsas como um inquilino sorrateiro.

Sem ele e sua calma reparadora, ela enfrentaria um dia difícil ao amanhecer. Olhos pesados de sonolência e olheiras, cinzas de uma fogueira esmorecida, tingindo de cansaço seu semblante. O corpo se recusaria a acordar e a mente embaralhada buscaria esforços na razão para despertar.

Nessas horas preferia não mencionar, sequer pensar, insônia. Parecia-lhe que ao dar nome às peraltices do sono estaria dando a ele um diagnóstico decisivo. Como um rótulo que define alguém para sempre, sem que esse alguém tenha a chance de ser visto em suas múltiplas facetas. Como o louco, que mesmo são, sempre será louco.

E o sono soprava desafios ao ouvido dela, passando de soslaio pelo canto da escrivaninha. Queria vê-la desajeitada por dentro do pijama azul de bolinhas minúsculas, com os cabelos presos num coque desgrenhado, caindo por cima da jaqueta de lã que a fazia parecer sempre resfriada.

Não gostava de ver TV, o aparelho parecia-lhe um estranho pacote de muita gente a tagarelar invasivas palavras na sua intimidade. Preferia o exaustivo vício de pensar. Aqui e ali dava voltas na cozinha, um bico de pão, uma mordida no bolo de chocolate e um gole de guaraná diet direto na boca da garrafa. Quanta incongruência!

Deixava de lado os óculos, de propósito. Os muitos graus de deficiência na visão a impediam de ver os detalhes sórdidos da camada espessa de cobertura do bolo, então, tudo parecia menos grave. Era assim quando resolvia cantar em público. Sem ver as expressões das pessoas desatava a desafinar sem culpa.

Lembrando de coisas bobas ia armando ciladas para o sono sem que ele percebesse. Fingia não mais esperar por ele, até que enciumado o danado ia se chegando. Formava um bocejo longo, outro mais curto e entrecortado, um lacrimejar pelos cantos dos olhos até deixar tudo confuso nos pensamentos desatinados perdidos no corpo de pano...


(Tela "Sleeping Girl" de Rembrandt van Rijn)

3 comentários:

Maracimoni Oliveira disse...

Marcia,

Parabens por este espaco de poesia, de cultura, de litetura e boa informacao. Deu-me uma leveza tao grande ler suas palavras que parecem mesmo como seda...
o NovoPapeldeSeda ja esta nos meus favoritos e nas minhas leituras diarias. Aqui vou matar um pouco a saudade do meu querido Amapa.
Um beijo,
Maracimoni Oliveira

Márcia Corrêa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Márcia Corrêa disse...

Querida Mara,

Fico feliz em tê-la com leitora do Papel de Seda. Quando quiser esteja à vontade para enviar seus escritos. Serão muito bem recebidos.

Beijão