7 de jun de 2009

Farinha pouca, meu pirão primeiro

Manifesto dos documentaristas do Amapá

O audiovisual é um forte instrumento de resgate e de acervo de uma realidade histórica e social. É através dele que documentamos a trajetória de um povo e suas conquistas. O mundo tem muito que conhecer e reconhecer a partir de suas inúmeras possibilidades. E esse nosso gigante lençol verde que é a Amazônia tem uma gama infindável de temas a mostrar.

O problema é que o olhar de quem aqui vive e reconhece a importância desses focos nunca é valorizado por quem detém o poder das políticas públicas. Elegemos os nossos representantes e estes elegem outros realizadores para filmar em nosso quintal e levar a pouca verba que também deveria servir aos nossos propósitos documentais. Nada contra esses realizadores. Que bom que eles nos prestigiem mostrando nossa gente e nossas belezas naturais.

O senador José Sarney abre as burras e saca dois milhões, a deputada federal Dalva Figueiredo comparece com trezentos mil e a cineasta Tizuka Yamazaki filma parte de seu longa-metragem Amazônia Caruana lá pros lados do Araguari. Que bom mesmo! Ela trouxe a sua equipe e somente meia-dúzia de gatos pingados daqui irão participar, carregando equipamentos na locação. Quem sabe poderão aprender com eles alguma nesga de suas experiências?

Agora, perguntamos: será que isso está certo? E o nosso pirão? Quem nos dera ter pelo menos um pouco do cuí dessa farinha! Uns poucos e minúsculos bagos, mesmo que fosse a sobra do fundo da saca. Somos nós que trabalhamos por este lugar e elegemos os representantes legais e são outros que levam a saca cheia? Esperamos que a nossa tribo esteja inserida no projeto Tainá III anunciado por seus produtores e pelo Governo do Estado. Tomara que possamos participar do processo e não nos deixem de fora, com nossas bundas ao alcance de suas lentes refinadas e com cara de quem está feliz com essa patuscada oficial.

Um dia, um amigo chegou à conclusão de que a “política é para quem tem coragem”. Aviso aos navegantes: quando nos pintamos para a guerra, nossos irmãos tucujus se vestem dessa mesma coragem. Decência e bom senso é que cobramos nessa batalha. Achamos que, em vez de ignorados, deveríamos ser olhados como o que somos: aliados e principais interessados na batalha pelo audiovisual.Temos consciência do nosso valor e queremos o diálogo. Não queremos guerra, mas estamos lutando pelo espaço a que temos direito.

ABDeC / APAssociação Brasileira de Documentaristase Curtametragistas do Amapá

Um comentário:

citadinokane disse...

Oi Marcinha!
Total apoio ao manifesto.
A luta continua, sempre!
abraços,
Pedro