9 de jun de 2009

Sobre vôos


Chega primeiro a parte que pesa sobre seus próprios ombros. A outra parte, desatenta e leve, sempre se atrasa. Não presta atenção no tempo, sequer se dá conta da urgência do momento. Pensar, não pensa. Apenas ri e faz tudo parecer ensolarado.

A parte que pensa se antecipa, arruma tudo e quer o irretocável no comando das coisas. Vê o tempo com severidade e calcula cada centímetro da eternidade. Ávida por lucidez lê a vida como quem analisa pesares em telas de cristal líquido.

A parte que se atrasa precisa da complacência do tempo. Vem a pé ou de bicicleta, e se distrai pelo caminho a contemplar o vento. Quer chegar, mas não tem pressa e crê na eternidade como quem navega espiando as estrelas no firmamento.

A parte severa geme de dor, mas pinta telas foscas com a tintura da maturidade. Por outra, a que ri também chora ao mesmo ensejo do revelar do amor. É tosca de sentimentalidades. E de tanto que faz graça com o vento, perde vôo e não chega à tempo.


(Tela Woman with a Head of Roses, de Salvador Dali)

3 comentários:

Marcos Quinan disse...

Maravilhoso...

Jac. disse...

Eu sou sempre a parte que
precisa da complacência do tempo.
Vou a pé e tudo me distrai pelo
caminho!
Vivo a contemplar o vento e quase
nunca chego...

Márcia Corrêa disse...

Quinan,
Adoro esse seu jeito exagerado de gostar das coisas.

Jac,
Eu sou as duas. Imagine as perdas e os danos...