21 de mai de 2010

Reinventar a infância em nome dessa dor

Foto: Paul Kennedy
Vou começar por esse incômodo, quase uma dor, aqui no peito. Acabou ainda há pouco a coletiva de imprensa de promotores de justiça e delegados de polícia sobre o caso de triplo homicídio tendo como vítima a família Konish. Um gole de café pra tirar a secura da garganta e dar algum alívio ao paladar. Lembro de palavras e expressões do promotor Flávio Cavalcante, emocionado, tenso, às vezes trêmulo.

Naquele momento ele representava uma sociedade, ou parte dela – há quem se lixe - atônita com a barbárie que envolveu o crime. Uma mulher de 34 anos e seus filhos, um rapaz de 17 e uma menina de 11 esfaqueados dentro de casa por um “amigo” da família. Pela versão final da investigação, Wellington Raad, 19 anos, confessou os crimes, mas não revelou as causas nem os detalhes de sua ação.

Volto ao incômodo no peito e penso em algo sobre onde está a humanidade dentro de cada um de nós. Onde esse arcabouço de valores morais, sentimentos e limites éticos, alicerçados por alguma racionalidade se esconde para que possamos acessá-lo, ou perde-lo de vista, em momentos cruciais? Jogos Mortais I, II, III, IV, V e VI eram filmes locados por Wellington em seqüência.

Quantos adolescentes assistem a esses filmes e outros de teor inexplicavelmente violento como lazer em família? Quantas mentes juvenis, nesse exato momento, estão sendo estimuladas ou induzidas a atos de horror como num jogo ficcional onde tudo acaba num letreiro na tela? As estatísticas provam que drogas e álcool estão na origem de muitos crimes. A psicologia e a psiquiatria provam que cenas violentas repetidamente assistidas modificam a sensibilidade e o psiquismo humanos. À exceção das drogas, o álcool e as cenas são lícitos.

Tem também um oco na alma dos amapaenses, aqueles que nasceram aqui e aqueles que desde a infância vivem e ainda guardam a lembrança de um lugar de atmosfera leve e quase ingênua. Onde a liberdade nas brincadeiras de rua possibilitava experiências de convívio humano, que alicerçavam esse arcabouço de valores tão importante e vital.

Laços de gente com gente, não de uma mente solitária com a tela de um computador ou de uma TV. Gente de mãos dadas brincando de roda, pernas correndo no pira-esconde, bandeirinha, queimada, bola no quintal, no campinho da outra rua, goiabeira, mangueira alta com risco de cair, banho de igarapé. Desafios reais e saudáveis vivenciados e absorvidos. Construção de alguma humanidade.

Antes de cometer os crimes, Wellington jogava vídeo-game com uma das vítimas. Tiremos as crianças da frente da TV!!! Controlemos os horários de exposição à internet!!! Vigiemos os jogos virtuais!!! Dá vontade de gritar bem alto. Salvemos os quintais e as pracinhas!!! Outro grito mudo. Olhemos bem dentro dos olhos de nossos filhos e os reconheçamos em nós!!!

O mais difícil para essa sociedade atônita é admitir que está de tal forma degenerada, que não mais responde pelos sinais bucólicos de um passado bem recente. Que já produz seres humanos cuja humanidade perdeu-se nalgum canto escondido da alma, escuro e triste. Que Macapá não é mais a cidade das ruas descalças onde seu povo pacato era incapaz de um ato atroz.

Não foi ninguém de fora, um estrangeiro, um estranho. Não foi um fugitivo da penitenciária com ficha corrida. Não foi um crime encomendado e executado por matadores profissionais. Foi alguém de dentro, do convívio em comunidade, com a ficha criminal limpa. Alguém que pode ser qualquer um. Uma alma profundamente doente.

Ainda com o peito acanhado e sem nenhuma vontade de entrar nos detalhes do crime, necessários para a matéria jornalística, penso em lições, sempre nelas. Há que se tirar algum aprendizado dessa dor coletiva. Rever a infância das gerações que ainda estão em formação, repensar e represar os conteúdos fartamente oferecidos pelos meios de comunicação às crianças e aos adolescentes, impor limites e regras de convívio humano, reensinar a velha e tão nova lição do Cristo: amar ao próximo como a si mesmo.

3 comentários:

jac rizzo disse...

Márcia, li e parabenizo você pelo pungente texto!!! Essa notícia me remeteu a outro acontecimento bárbaro. Em São Paulo, e eu estava lá na ocasião, um rapaz que cursava o último ano de medicina, acabou de assistir 'Clube da Luta' e foi ao cinema (no Morumbi) decidido a repetir toda a violência que acabava de ver. Márcia, ele entrou atirando em quem ele encontrava. Matou várias pessoas.

Sou muito a favor da retirada das crianças e adolescentes da internet e TV. Eu tenho orkut e blog, mas uso com muita moderação e, o que é fundamental, já formei minha personalidade e já consolidei meus valores éticos e morais.

Ah, esqueci de um detalhe importante: brinquei muito de roda,de ciranda, amarelinha, esconde esconde e comi muita fruta no pé!

Um beijo pra você e, mais uma vez, quero dizer o quanto a estimo e tenho orgulho da sua amizade!

Mesmo à distância...

luli rojanski disse...

Márcia, compreendo e compartilho desse sentimento. Que a gente nunca desista de tentar reinventar a humanidade.

Juliana Corrêa disse...

Falta é Deus no coração das novas gerações. Hoje em dia todas as crianças entendem de games e celulares super modernos, mas ninguém entende mais de Deus. A humanidade fez o caminho contrário, se afastou do que mais deveria prezar.
Não sou a favor de afastar as crianças da internet. Acho a internet um meio valioso de comunicação, crescimento e preparo para o mundo real.
Mas sou à favor sim, de que não se cortem as árvores do quintal, e sou à favor de alguns pontos da "ditadura familiar": pais devem sim obrigar seus filhos a brincar com outras crianças, se descobrirem fora do mundo virtual, comer fruta, ir à missa, ao culto ou nas palestras...
Pais tem que ser pais. Computadores não substituem a educação que eles tem para oferecer. E é comum eles chegarem cansados em casa e dar o notbook com internet ilimitada para a criança, tentando suprir sua ausencia.
Cada um no seu quadrado mesmo. Crianças aprendendo, pais ensinando, comunicação e DEUS sempre.