7 de jun de 2010

Mona lisa e os poetas malditos

Na poesia, a imaginação vê e se manifesta por meio de palavras, a abstração se torna verso e a musicalidade entoa a emoção essencial. A realidade mergulha no sonho e as metáforas desnudam um novo mundo, ambíguo e desfeito em apelos subjetivos.
Se a experiência visual nos convida ao contexto e à circunstância, onde o belo é valorizado como realidade estética mensurável, é na poesia que a face oculta da natureza humana se revela e onde, muitas vezes, o feio encontra seu lugar.
Foi na contramão da hipocrisia cotidiana que despontou, no fim do século XIX, sob influência da arte de Charles Baudelaire, a “Trindade Sagrada do Simbolismo Francês”, composta pelos poetas Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé.
Mostrando seu viver atormentado e a dubiedade que existe nas almas criativas, os poetas mergulharam profundamente na aventura simbolista.
Resgatando um pouco do romantismo no enfoque aos sentimentos, mas sem os arroubos idealizados pelo coração, os poetas simbolistas se aprofundaram nos estados da alma.
Sorumbáticos e angustiados, despiram-se dos rigores da poesia parnasiana (culta e metrificada, que exaltava a forma e a estética) para se derramaram em versos subjetivos, musicais e sinestésicos.
A melancolia, o desregramento, os vícios e a boemia, muito além de maneira contestadora e rebelde, apresentam-se nos versos simbolistas como parte da subjetividade humana, cujos desejos e conflitos permeiam a linguagem poética.
A musicalidade, infiltrada em versos cheios de transcendência e introspecção, utiliza figuras de linguagem repletas de simplicidade enternecedora e reflexiva.
O triste é triste. A dor machuca. A morte é fato. A felicidade e a crueza estão em tudo que existe. O riso e o escárnio fazem parte do viver e a obscuridade do verso não o dissocia da espiritualidade. Se a sociedade aprisiona, a poesia deve ser libertária e obedecer ao ditame do sentir, usando a imaginação e o sonho muito além da beleza.
A urgência e as antíteses marcaram os poetas malditos. Viveram seu tempo com intensa passionalidade. Figuras instáveis, trágicas e perplexas ante a vida e seus imprevisíveis percalços, sorveram em goles de absinto a própria existência.
E quanto à Mona Lisa? “La Joconde” repousa, atemporal e altiva, na França dos poetas malditos. Seus lábios sugerem refinada ironia e enigmática promessa. Seu olhar dúbio acompanha, desafia e perscruta aqueles que a admiram, como se quisesse segredar (para sempre!) aquele instante de criação artística que superou o próprio tempo.
Mona Lisa é poesia, profundidade lírica e liberta do imaginário de cada um de nós.
O fabuloso quadro de Leonardo da Vinci transpôs o limiar da beleza renascentista e se eternizou como a mais valiosa e famosa obra artística na história do mundo.
Sob qualquer forma e em qualquer tempo, a arte sempre expressará o enigma da alma de seu criador.

Por Josyanne Rita de Arruda Franco

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