30 de abr de 2009

Os sertões dentro da gente

Há sertões sem fim dentro de quem desprotege a existência das emoções vindas de fora, e reinventadas nas cacimbas e grotões da alma que abre bem os olhos para as dimensões imensuráveis do mundo. Generosidade no olhar e no transbordar esse olhar sobre o tudo em volta. Guimarães Rosa faz isso com a gente. Mexe com o ritmo do pensar, muda o foco do jeito como vemos as cores, as pessoas, a obra interminável da natureza e as pegadas do ser humano na estrada de si mesmo.

Tem uma coisa de emocionar inesperadamente, de fazer rir do impensável mais simples e de fazer deter a observação na densidade do mais complexo. Não há frase por ele escrita impunemente, nada escapa do enlaçar do raciocínio, que nele é como olho d’água brotando, brotando e sempre brotando. Não se pode ser o mesmo, ou a mesma, depois de vislumbrar a limpidez de um personagem criado por João Guimarães Rosa. São como espelhos que falam, que resmungam, que inquietam.

E nós estamos lá, dentro deles e eles dentro de nós, mesmo que seja aos pedaços, na proporção de nossa capacidade de enxergá-los e de nos reconhecer com coragem. Há uma sensação de plenitude, de pertencimento ao universo das emoções e buscas que são de todos. O amor, a amizade, as contradições dos apegos, as sinuosidades da maldade, a serenidade da sabedoria. Tudo isso em linguagem que decodifica os mistérios desse pertencer entre homem e natureza, ainda que parecendo um código próprio, só dele.

E bem de repente a gente quer do fundo da alma integrar esse falar que parece truncado, mas que sai dizendo de tudo por tudo que tem dentro da gente. E aí reside a natureza dos sertões que nos habitam. Essa força que faz caírem as civilidades expostas em artificialidades engessadas, em modos e pensares arrumados em prateleiras de bom senso, em conceitos concebidos antes da vivência sincera com o mundo e com as pessoas.


3 comentários:

__________________________________________Marcos Quinan disse...

Márcia,

Depois desse, que me emocionou profundamente, assino se for pra assinar, carimbo se for pra carimbar, reconheço onde for pra reconhecer e esparramo por força de dever.

Maravilhoso.

Mostre pros seus medos quando precisar.


Te abraço.

PAULO MIRANDA (A Folha) disse...

Nada mais sincero do que pisar na terra com os pés descalços.

Lulih Rojanski disse...

Márcia, esse texto me lembra uma frase do próprio Guimarães Rosa: Se os animais inspiram ternura, o que houve então com os homens?
Bj.