24 de abr de 2009

Um cuidar descuidado

Havia dias que passava pelo pátio e olhava de soslaio para o pé de crisântemos amarelos, plantados no vaso marrom de tintura corroída. Gostava dos vasos assim, feito fotos antigas, repletas de emoções e marcas. Os galhos e folhas secavam a olhos vistos e ela não compreendia.

Naquela noite, bem tarde, quando a casa estivesse mergulhada em silêncio, podaria os galhos e limparia as folhas secas. Mas, dias se passavam e ela deixava por conta do tempo. O que haveria de ser? Excesso de exposição ao sol... Talvez os exageros da chuva. De passagem, arrastou o vaso para a curva do pátio onde a sombra poderia abrigar as flores da luz frontal, deixando um rastro de terra preta no piso.

Era assim que lidava com a iminência da morte. Nunca soubera direito o que fazer com o fim das coisas. Tinha mania de eternidade. Ficava perdida, adiando as providências, as decisões, as atitudes. Era como se contasse sempre com o invisível para fazer por ela, o que rogava por seu único e insubstituível reconhecimento.

Os crisântemos a olhavam desalentados e ela os evitava. Mas sofria. Até que noite dessas, debaixo de um manto azul marinho bem escuro estendido sobre o infinito para enxugar o céu, pegou a tesoura de costura que nunca parava no mesmo lugar, e foi podar a planta agonizante. Agachou-se e passou a cortar os galhos esturricados e as folhas sofridas – dava dó cortar as flores. Parecia doença de dentro.

Seu fazer era desajeitado de todo, sem delicadeza. Tinha pressa em não ver as coisas assim. Era como se não acreditasse – e não acreditava, que pudesse ser fonte de socorro prestimoso, de auxílio proveitoso à vida ali em solvência. Fazia porque tinha dó, mas no cuidar sem crer punha toda a esperança de aprender.

Feita a poda, lembrou de revirar a terra em volta do serzinho frágil vestido de flores amarelas. Enfiou a tesoura longa pelas laterais do vaso afofando a terra preta enrijecida. Seria assim mesmo? Com a tesoura servia? Parecia-lhe mais uma agressão que um cuidado. Era assim que cuidava então?

A pressão no canto dos olhos anunciando o sono cutucava seus sentidos. Era tão tarde que a rua perdera o senso de viver. Olhou mais uma vez para os crisântemos desmilinguidos e quase pediu perdão a eles. Na verdade pediu. Por seu descaso, por sua ausência afetiva, por seus cuidados toscos, por sua falta de crer. Com os olhos pediu a eles que não morressem. Que lhe dessem mais uma chance.

Penalizava seu coração não mais ver o buquê amarelo colorindo o pátio. As delicadas pétalas finas e fartas projetadas para todos os lados como se fossem raios de pequenos sóis. Fechou a porta e carregou consigo aquele torpor que lhe ocorria sempre que se anunciava um pensar mais fundo sobre as coisas acontecidas. Chegara a hora de se encontrar com os adiamentos.

Caminhou até a varanda dos fundos da casa, olhou o quintal às escuras e deixou vir o choro represado. Não havia como contê-lo nessas horas. Tinha vida própria, ritmo acelerado e volúpia. Desmanchava suas defesas e desfazia a tinta das metáforas que ela pintava em torno de si mesma. Chorou ao Criador naquela noite... Não quero que eles morram... Não quero ser assim com as criaturas...



(Tela Fresh Mum, de Stefania Ferri)

Um comentário:

Jac. disse...

Bravo, Márcia!!
Que delícia! A princípio, pensei
em lhe ajudar com os crisântemos. Não sou especialista
em flores de corte, mas sei detectar quando é preciso acrescentar adubos e trocar a terra (as de vaso empobrecem com facilidade). Mas querida, quando se trata de podas de almas e suas nesessidades, entendo facilmente os 'adiamentos'...

Há coisas que deixamos pra depois,
elas nos dão um certo tédio e o
simples fato de vê-las, nos causa
desconforto...

Gosto muito das suas escritas!!
Continue sempre, que as letras se
transformam em amigas e confidentes!

Sua leitora, agora!!

Meu carinho!