14 de dez de 2011

Meias de seda

Não haveria nada de leve naquela narrativa. Iniciava-se diante do homem impassível, sentado na cadeira escura da sala que cheirava a mogno lustrado. Sobre os ombros dela, a echarpe cor de rosa pendia zelosamente por cima da gola do casaco azul de sarja. Enquanto ele esperava por suas respostas, ela pensava no sabor das bananas amassadas com leite e açúcar que comera antes de sair de casa.
Sempre que lhe era exigido compor pensamentos mais sólidos sobre si mesma, trazendo à tona reflexões elaboradas a respeito de sua própria trajetória de vida, algo de infantil a reconfortava, como a lembrança do sabor das bananas. Sentia-se fragmentada, e reunir seus pedaços para expressar algo mais consistente se fazia um esforço cognitivo imensurável. Daí a decisão de estar ali, semanalmente, diante daquele homem confidente.
Paradoxalmente sentia-se velha, mais velha que sua própria existência presente. Gostava de pensar que sua alma cheirava a talco perfumado com fragrância de flores, enquanto havia um continente deserto de segredos em seu coração. As gavetas da alma velha estavam abarrotadas de mágoas disfarçadas por meias de seda. E após a meia-noite, sempre após, elas doíam por toda a extensão do peito, num silêncio moribundo de solidão.

3 comentários:

Um brasileiro disse...

oi. Tudo blz? Estive por aqui dando uma olhada. muito legal. apareça por la. abraços.

Franz disse...

A Web nos reserva cada surpresa!... Navegar por ela é um susto (é no susto que todo aprender começa) constante. E me assustei aqui. Parabéns! Vou voltar. É uma ameaça (rsss)
Franz

Dinha'' disse...

Bem, eu tenho temido mudar, Porque eu construí minha vida ao seu redor, Mas o tempo traz coragem; crianças envelhecem, Estou envelhecendo também.(sinopse do meu blog)
Acessa o meu blog?
"Crianças Envelhecem"

http://criancasenvelhecem.blogspot.com.br/

Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
Desde já obrigada. Tenha uma ótima semana.
Atenciosamente, Dinha'.